Thomas Hobbes

EMPIRISMO

Ao contrário dos filósofos racionalistas, como vimos em Descartes, os filósofos empiristas valorizavam a experiência concreta e a investigação natural. Vale frisar: são os sentidos humanos que fornecem as primeiras ideias à razão, pelas quais ela analisa, relaciona, raciocina e conclue as suas próprias ideias, gerando assim um conjunto de ideias a ela relacionadas. Entre os principais filósofos empiristas destacam-se Thomas Hobbes, David Hume, Jonh Locke.

HOBBES – A RAZÃO CALCULA

Para Hobbes (1588 – 1679), a razão não passa de uma faculdade humana que serve como instrumento de operação ou cálculo entre nomes gerais, cuja função é marcar e significar os pensamentos. Assim, para Hobbes, raciocinar é o meio pelo qual, que dadas certas premissas, a razão chega necessariamente a certas conclusões. Premissa essas que nos chegam apenas pelos sentidos. Para Hobbes, todo conhecimento humano deriva de uma só origem: a experiência. Desse modo, o homem que possuir maior número de experiências em qualquer tipo de assunto, possui, conseqüentemente, maior números de sinais e significados e, portanto, terá capacidade de prever acontecimentos futuros, e será, devido à memória de experiências, mais prudente que outros. 

Em sua obra Leviatã, afirma: “No que se refere aos pensamentos humanos, considerá-los-ei primeiro isoladamente, e depois em cadeia, ou dependentes uns dos outros. Isoladamente, cada um deles é uma representação ou aparência de alguma qualidade, ou outro acidente de um corpo exterior a nós, o que comumente se chama objeto. O qual o objeto atua nos olhos, nos ouvidos, e em outras partes do corpo do homem, e pela forma diversa como atua produz aparências diversas.

A origem de todas elas é aquilo que denominamos sensação (pois não há nenhuma concepção no espírito do homem, que primeiro não tenha sido originada, total ou parcialmente, nos órgãos dos sentidos). O resto deriva daquela origem” (HOBBES. LEVIATÃ).

Hobbes inicia seu discurso justamente indo em sentido contrário proposto por Descartes. A causa da sensação são os objetos exteriores que atuam sobre o corpo humano provocando, desse modo, ideias na razão dos objetos que a afetam. Assim, são as sensações que transmitem à razão aquilo que ela toma para si como ideia de alguma coisa, sem as quais, segundo Hobbes, a razão não conseguiria formular outras ideias. Isto implica dizer que sem os sentidos a mente não pode formular ideias. Embora, para ele, a razão possa operar tais ideias, ele não faz mais que calcular aquilo que lhe vem da experiência.

“(…) Ao raciocinar, não fazemos mais que obter uma soma total por meio da adição de parcelas, ou um resto por meio de subtração de uma soma de outra; isso (se for feito com as palavras) consiste em obter, por meio da conexão dos nomes de todas as partes, o nome do todo; ou o nome do todo e de uma parte, o nome da parte restante…” (IDEM).

Assim, percebe-se em Hobbes que a linguagem, por sua vez, é um discurso mental e inato que primeiramente o homem faz consigo mesmo, registrando seus pensamentos, recordando e utilizando-os à medida que se preserva na sua existência. Enquanto discurso mental, a linguagem consiste em ser utilizada para um discurso verbal, que é a passagem de uma cadeia de pensamentos para uma cadeia de palavras. Isto implica dizer que todas as formas de saber para Hobbes, especialmente as ciências físicas, se fundam no cálculo, em que a operação mental pode ser reduzida a uma aritmética de sinais.

Com efeito, pela primeira vez na história, as operações mentais foram reduzidas a puros cálculos aritméticos. O mundo do pensamento e da linguagem na sua totalidade pode ser descrito por meio de operações de composição-decomposição de palavras e sinais. Raciocinar é, portanto, computar, ou seja, subtrair, somar, calcular.

Conhecer é perceber que o conhecimento é originário da experiência, mas não é adquirido, no sentido pleno da palavra. A filosofia, sendo um estudo do conhecimento, deve alcançar conhecimentos universais e necessários; a experiência, todavia, presa aos fatos, ao que é particular, encontrará dificuldade para chegar à certeza de um enunciado necessário e universal. A filosofia é um conhecimento adquirido por raciocínio, e raciocinar é calcular. Calcular é sempre separar e juntar, pois então raciocinar é separar e juntar ideias e noções.

Quais ideias e noções?

O conhecimento se adquire a partir do conhecimento de causas (gerações) e efeitos (fenômenos). Conhecer algo, para Hobbes, é conhecer como algo é feito. Tudo tem causas, e é ao conhecer as causas que a Filosofia poderá fugir à particularidade a que está presa a experiência. Conhecendo a causa de determinado efeito, saberemos como tal efeito se produz sempre em todo lugar.

Nascido na Inglaterra em Malmesbury, Thomas Hobbes (1588-1679) desde cedo adquiriu gosto pelas línguas clássicas, estudando grego e latim. Aos sete anos, foi aluno de Robert Latimer versado em latim e grego, que lhe proporcionou sólidos conhecimentos nas línguas clássicas, rendendo-lhe a sua primeira tradução, Medéia de Eurípedes, aos 15 anos de idade.

Aos 14 anos de idade ingressou em Magdalen Hall, Oxford. Após ter terminado seu curso superior em Oxford, em 1608, empregou-se como preceptor de várias famílias nobres, entre elas a família de Carlos Stuart (1640), futuro Rei Carlos III.

Viajou pela Itália, onde conheceu Galileu, e pela França, passando por Paris, onde viveu um exílio voluntário de 1640 a 1651, e Merssene, onde participou dos círculos cartesianos.

Morreu aos noventa e um anos, em dezembro de 1979, deixando obras cuja reflexão acerca da política é o seu principal tema, seguido da teoria do conhecimento humano: Os elementos da lei natural e política (1640); Do cidadão (1642-1647); Da natureza humana ou elementos fundamentais da política (1650); Leviatã (1651); Do homem (1658); Tratado do homem (1658); Sobre a liberdade e a necessidade (1682); Questões referentes à liberdade, à necessidade e ao acaso.

Hobbes fez parte da corrente filosófica conhecida como o empirismo inglês. Está corrente defendeu a tese de que são os sentidos a fonte do conhecimento humano, cabendo à razão as particuaridades que cada filósofo lhe atribuiu, segundo a sua doutrina.

Em Hobbes, a irredutibilidade da substância pensante (corpo) sustentada por Descartes é duramente criticada. Ao contrário do que propunha o racionalista francês, acerca da substância, o filosófo inglês defendeu um materialismo radical, no qual toda substância seria corporal. Para ele, uma coisa que pensa é algo corporal, a razão apenas participa com suas sutilizas agindo sobre os sentidos. Como corpo, Hobbes entende tudo aquilo que é causa das sensações. Ele designa como corpo aquilo que ocupa espaço, tem certa grandeza e uma forma determinada. Por isso, o corpo exterior é, ao homem, a causa das sensações, pois os órgãos sensoriais humanos são sensibilizados por ações corporais que são propagadas até a mente.

Isso significa dizer que o conhecimento se dá por dois princípios: movimento e memória.

Por um lado, as causas principais das pressões que sentimos dos outros corpos é o movimento e “são muitos os movimentos da matéria que pressionam nossos órgãos de maneira diversa”, sendo que as aparências que tocam os sentidos é o movimento local dos corpos, ou seja, a mudança dos corpos no espaço; por outro, é através da memória que o homem registra as qualidades dos objetos, os fantasmas sensíveis, que são os efeitos dos corpos e do movimento dos sentidos humano na razão.

Desse modo, o que a razão opera, com efeito, são convenções sobre as significações nela mesma, reunidas em NOMES dados de modo arbitrário e de acordo com as imagens projetadas na razão. Esta concepção de conhecimento o tornou em um filósofo nominalista, em que os nomes são fundamentos para que a razão possa operar os dados impressos pelos sentidos.

O nominalismo hobbesiano releva que os pensamentos são fluídos e, dessa forma, devem ser apreendidos como sinais sensíveis, que conduzem a razão a dados passados, registrando e sistematizando-os como tais, para que possam ser, posteriormente, transmitidos.

Assim como os nomes são arbitrários, são também as definições (conceitos) construídas pelos homens. Para Hobbes, as definições não expressam nada senão a mesma arbitrariedade dos nomes, pois, em si mesma, definir é apenas fornecer significado ao termo usado e, por conseguinte, as proposições são também um conjunto arbitrário de conexões que a razão opera.

A razão, portanto, não passa de uma faculdade humana que serve como instrumento de operação ou cálculo entre nomes gerais, cuja função é marcar e significar os pensamentos. Assim, raciocinar é o meio pelo qual  a razão chega necessariamente a certas conclusões. Premissa essas que nos chegam apenas pelos sentidos. Todo conhecimento humano deriva de uma só origem: a experiência. O homem que possuir maior número de experiências em qualquer tipo de assunto, possui, conseqüentemente, maior números de sinais e significados e, portanto, terá capacidade de prever acontecimentos futuros, e será, devido à memória de experiências, mais prudente que outros.