Os ensinamentos da Filosofia Sofista: achismo e relativismo

Na tradição da Filosofia, os Sofista por muito tempo foram vistos como mercenários do conhecimento, principalmente, pelos escritos deixados por Platão. É claro que o contexto histórico da morte de Sócrates impôs ao filósofo e aluno de Sócrates um certo repúdio, tendo em vista que no processo de acusação do mestres havia sofistas envolvidos na trama.

Platão, de fato, em muitos momentos desqualifica o sofistas, dando-lhes ares de falsos sábios e enganadores da sociedade grega. Por certo, a base do pensamento sofista repousa em uma questão que, para os filósofos gregos, havia uma desqualificação enorme diante da verdade.

Sócrates, assim como Platão, acreditava que a Verdade, desse modo mesmo com “V” maiúsculo, era, pois, o princípio a ser alcançado pela razão humana. E, neste sentido, seria, pois, o conhecimento o caminho para a sabedoria plena. Por isso, o mestre de Platão não tinha dúvidas quanto aos duvidosos ensinamentos dos sofistas, tendo em vista que, a seu ver, eles propagavam a verdade como conveniente àquele que a emite.

Realmente, o lema que conduzia a reflexão sobre a verdade aos sofistas era “O Homem é a medida de todas as coisas”. Tal pensamento remete à questão sobre à verdade ao relativismo, isso porque a medida daquilo que se emite como princípio de verdade está em cada humano e não na correspondência entre o que se emite e o que é realmente o objeto. Assim, a interpretação de um objeto não estaria submetida ao sentido do que ele realmente é, mas ao sentido de quem acha o que ele é. E aqui está o problema: cada um pode emitir uma interpretação diferente sobre o objeto sem que haja de fato uma real verdade sobre ele.

Este movimento da filosofia sofista remete o saber ao relativismo. Isto é, a verdade que se emite do objeto é relativa àquele que o observa. Aqui tem-se dois pontos importantes para a reflexão sofista. Primeiro, quando pensamos em conhecimento de fato, a visão relativista implica considerar outras perspectivas para considerar o conhecimento do objeto, o que torna a investigação científica saudável, pois, este posicionamento filosófico colabora para a ampliação das relações na análise do objeto e faz que o pesquisador escape do dogmatismo.

No entanto, e aqui encontra-se o segundo ponto, o relativismo fora dos domínios da ciência cria margem ao senso comum por permitir que o sujeito acredite que tudo que se pensa é, por princípio, verdadeiro. O que realmente não pode ser tomado como princípio filosófico de reflexão. O fato de acharmos que algo é, ou seja, como pensamos certo objeto, não implica que esse pensamento tenha alguma correspondência com o objeto. O relativismo não pode aqui ser levado ao ponto de se apoiar na verdade com a frase “é esta a minha opinião”, pois, opinião todo mundo tem, mas conhecimento são poucos que o tem.

Por isso, o maior argumento de Sócrates diante da falácia sofista sobre a verdade, era a humildade em reconhecer que o conhecimento adquirido não era senão a ausência de qualquer conhecimento. Pois, com efeito, somente no diálogo e a submissão do próprio conhecimento à perspectiva de outros saberes que o conhecimento viria das sombras do achismo à luz do conhecimento válido e correspondente ao objeto.

Por certo, os sofistas deixaram um legado filosófico importante ao ensinar os gregos que a visão relativa ao objeto nos ajuda a compreender o quão complexo pode ser o conhecimento de um objeto. Contudo, eles nos ensinaram também que o relativismo não deve ser apoiado no “eu acho”, muito menos no “é isso que eu penso”, pois, de fato, todo mundo pensa, mas nem todo mundo pensa de modo correto em relação ao objeto. Para diluir essa confusão, nos temos aquilo que chamamos de conhecimento.

Conhecimento e Complexidade

David Hume talvez tenha sido um dos mais brilhantes filósofos empiristas da modernidade. Possuidor de uma capacidade crítica, em meio a monstros sagrados do conhecimento, como Descartes, Locke e Newton, Hume desenvolveu análise do conhecimento das ciências naturais e das ciências humanas que até hoje sofrem influências do seu pensar.

Dois pontos importantes da sua filosofia gostaria de destacar nestas linhas: primeiro, o seu projeto de ciências humanas; segundo, o seu projeto de ciência e conhecimento científico.

Em sua obra Tratado da Natureza Humana, Hume afirmou que “a natureza humana é a única ciência do homem e foi até aqui desprezada“. A relevância dessa afirmação incide diretamente nos dias de hoje, pois, de fato, houve um crescimento dos aspectos científicos sobre as questões que envolvem a natureza humana, mas que ainda hoje encontram resistências em se consolidar como fundamental aos estudos científicos. Por certo, na contemporaneidade, parte da sociedade ainda acredita que a pesquisa do conhecimento humano se foca apenas nas relevâncias da medicina e das questões que envolvem a cura dos males humanos. Contudo, esquecem-se que o ser humano habita um universo muito mais complexo do que os aspectos biológicos da sua própria natureza.

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E aqui encontramos a latente perspectiva de Hume. As ciências devem revelar ao ser humano, não somente as exigências analíticas das ciências experimentais, mas também postular um objeto de estudo que vá fundo na gênese do conjunto das faculdades humanas e em busca dos princípios que regem as operações racionais. O projeto de Hume, na verdade, quer ir além do sistema de ciência da filosofia da natureza, nos moldes newtoniano, e, por isso, solicita uma outra via de análise: a busca pelas estruturas internas e naturais no ser humano que permitem compor os aspectos internos de si mesmo. Em outras palavras, Hume propôs uma ciência que buscasse compreender quais são as anatomias internas do nosso pensar e como elas se revelam na compreensão e na construção do pensamento humano diante da realidade.

Assim, na sua ciência, não basta dar conta do fenômenos observáveis da natureza e do ser humano, seria preciso compreender como a razão compõe em si mesma todo o processo de apreensão e cognição da realidade e do conhecimento. Portanto, embora seu projeto pareça simples, ele traz no seu bojo uma complexidade tamanha, pois, as estruturas da construção do pensamento visam não somente compreender como a mente humana conhece, mas também compreender como ela associa em si mesma os dados recebidos do meio em que está inserida. Disso resulta a questão fundamental para o conhecimento humano e para as ciências humanas: questionar-se como os conhecimentos humanos se revelam com bases nos mecanismos internos da razão. Daqui, pois, a contundente afirmação de que os conhecimentos na razão humana não passam de hábitos ou crenças fundamentadas em um princípio que constitui ela mesma, ou seja, o princípio de causalidade.

Disso, portanto, segue-se ao segundo ponto destacado anteriormente. A fragilidade do conhecimento humano que Hume percebeu ao constituir aquilo que comumente chamamos de ciência. A seu ver, o conhecimento científico não dá conta do seu próprio saber quando este é posto em confronto com o real. Os mistérios que envolvem a natureza escapam ao saber científico e, por isso, tal saber é, senão duvidoso, no minimo, impreciso.

Na verdade, Hume escancara a ciência ao contingente ao afirmar que a menor possibilidade de desconhecimento nas relações de causas e efeitos, sejam eles humanos; sejam naturais, em outras palavras, aquilo que está fora do controle da ciência, pode resultar em outras relações possíveis e não compreendidas pela ciência. Estas relações fora do controle humano supõe, portanto, o desconhecido, mas se elas existem como possibilidade de desconhecido, qual é a validade que se tem para afirmar que o conhecimento científico é conhecimento de fato?

Portanto, o ceticismo de Hume se revela como uma dúvida quase mortal ao conhecimento científico: o Sol nascerá amanhã? A experiência e o hábito de vê-lo todos os dias despontar no horizonte imprime em nossa razão a certeza de que, como conhecimento, ele nascerá amanhã. Porém, as possibilidades do contingente na natureza incidem sobre o conhecimento científico demonstrando que o pseudo domínio das certezas se entrega ao insustentável desconhecimento do acaso, cuja resposta permite concluir que “talvez não”.

Assim, uma ciência da verdade se abala por uma necessidade emergente de se produzir critérios científicos para determinar o conhecimento de fato ( se é que isso seja possível). Hoje, a Teoria do Caos nos alerta que os sistemas científicos deterministas imprimem em seu interior fatores de instabilidades, que permite sustentar que pequenas alterações nas condições iniciais de um fenômeno, quando não percebidos pela razão humana, torna-o imprevisível. O que também permite decorrer que a ciência torna-se não um campo do conhecimento certo e preciso, mas, ao contrário, complexo, cujas mentes envolvidas neste processo não podem se entregar à determinação associativa simplesmente de causas e efeitos, mas antes à associação complexa – causas/efeitos/relações necessárias e contingentes. Num nível de exigência de observação, construção, argumentação e validação do saber muito além do que hoje constituímos o conhecimento científico

Por certo, dizer que a ciência não é conhecimento fere as bases de todo o conhecimento e toda a realidade humana construída em cima dele, pois, por mais que sejamos céticos quanto a ela não podemos negar que algum ganho se deve com os seus saberes. Porém, as críticas de Hume revelam que por mais que os humanos se achem donos da verdade, nada em seu sistema de conhecimento sobre o humano ou a natureza garante a validade da afirmação: é assim que acontece…