Sócrates e os Sofistas

O que é o período socrático? O período Socrático se caracterizou como um período antropológico, pois, buscou a compreensão dos fenômenos humanos.

 A filosofia grega antiga possui quatro nomes expoentes na sua história: Sócrates, Platão, Aristóteles e Epicuro. Cada um com particularidades e posicionamentos filosóficos bem distintos.

Esses quatro filósofos diferem dos filósofos pré-socráticos por pesquisarem objetos diferentes daqueles primeiros. Enquanto os filósofos pré-socráticos pesquisaram a natureza e, por isso, foram chamados por Aristóteles de filósofos naturalistas; Sócrates, Platão e o Aristóteles tiveram outros objetos de estudos.

Sócrates, por exemplo, pesquisou a moral e a política do homem, em particular do homem grego. Platão pesquisou também a moral e principalmente a política, a arte e a educação do homem grego. Também formulou uma teoria do conhecimento humano que será contestada mais tarde por Aristóteles, seu aluno, que foi mais além em suas pesquisas. Aristóteles inaugurou alguns estudos como a ética, a lógica, a metafísica, a poética e, ainda, algumas outras áreas que viriam ser ciências mais tarde, como a biologia e a física. Epicuro, em III a.C., fundou uma escola filosófica com linhas próprias de pensamento, sendo a principal delas a ética como centro de toda a atividade filosófica humana.

Todavia a um grupo de pensadores que sempre foram vistos com certo preconceito pela filosofia por se contraporem ao pensamento filosófico de Sócrates e Platão, esse grupo de pensadores são os sofistas. Os mais famosos são Protágoras e Górgias.

SOFISTAS

  • TUDO É RELATIVO

Para entendermos o contexto da filosofia sofística, é necessário compreender alguns aspectos da sociedade grega. Como foi dito, o debate em praça pública (a ágora) era o lugar comum para se firmar como cidadão influente na sociedade grega. O discurso eloqüente e persuasivo foi o instrumento necessário ao homem público e culto para a ação social e política na sociedade grega. A necessidade de bem se expressar e construir um discurso lógico e coerente era habilidade fundamental ao cidadão grego. Em meio a esse panorama, surgiram os sofistas, um grupo de oradores e pensadores que dominavam arte do discurso e o uso das palavras. Eles percorriam as cidades gregas, acolhendo discípulos e preconizando uma filosofia própria, diferente da dos pré-socráticos.

Os sofistas são professores da retórica e da oratória, cuja função era ensinar a arte do discurso. Segundo os sofistas, o que interessa ao homem é apenas a sua capacidade de se adaptar às regras morais, sociais e políticas à medida que lhe são convenientes. O falso e o verdadeiro não são conceitos definidos em si mesmos, mas conceitos definidos a partir de quem os apresentam. Verdadeiro é aquilo que convém ao homem e falso aquilo que não lhe convém. Desse modo, o que importa apenas é como se pode estabelecer uma verdade e justificá-la para que o outro se convença dela. Disso resulta que o discurso é uma arte poderosa para que se possam estabelecer verdades.

Protágoras é o mais conhecidos dos sofistas. Nascido em Abdera, em 483 a.C., e morto em um naufrágio, em 410 a.C., foi amigo de Pericles e gozava de grande prestígio entre a sociedade grega. Segundo Protágoras, a experiência do homem é o único critério para se estabelecer a verdade: “o homem é a medida de todas as coisas”, afirmou. O relativismo que Protágoras sustenta, revela que a verdade é impossível de ser alcançada. Todavia, o que pode, de fato, ser alcançado são soluções úteis, que o choque de opiniões que os debates filosóficos apresentam, naturalmente, isto é, seria melhor o discurso que apresentaria a melhor solução. Desse modo, a educação se torna um instrumento essencial para saber se diferenciar entre os melhores discursos e os piores.

Outro sofista importante na história da filosofia foi Górgias de Leotinos (487-380 a. C.). Em seu tempo, foi considerado um dos maiores oradores e mestre da retórica. Em sua obra Da natureza ou Do não-ser, Górgias defende que o conhecimento, devido a seu sentido instável e indefinido, carece de uma verdade plena e, por isso, é impossível que em si mesmo possa definir as coisas como elas são. Afirma: “nada existe que possa ser conhecido, se pudesse ser conhecido não poderia ser comunicado, não poderia ser compreendido”. Górgias crê que é o discurso que pode estabelecer a ordem das coisas, mesmo que o que se defende não seja verdadeiro.

Neste período, as compreensões do que é conhecer, dos princípios morais de convivência, da política foram as motivações que fizeram do filósofo Sócrates o grande destaque da época ao lado dos filósofos sofistas.

Sofistas e a Retórica

Embora este momento da Filosofia se fundamentou na figura do filósofo grego Sócrates, o fato é que os filósofos Sofistas foram, ao lado dele, também os grandes pensadores desse período. Enquanto Sócrates entendiam uma perspectiva filosófica centrada mais na dialética como modo de operar a busca pelo conhecimento, os filósofos sofistas entendiam que seria a “arte do convencimento”, ou seja, o discurso retórico, que promoveria as convenções humanas acerca de quase tudo que se discutia. Para eles, as convenções humanas eram quem permitia os fundamentos sobre aquilo que a humanidade dispões as suas certezas. Assim, não haveria uma Verdade, é sim coisas ou enunciados entendidos como verdadeiras, que se concretizavam como tal a partir de um discurso de persuasão, do convencimento.

Relativismo – O homem é a medida de todas as coisas

Tal modo de percepção de realidade e da construção do saber foi denominada de relativista, que se fundamenta na construção do conhecimento a partir do ponto de vista, isto é, da percepção em que cada um compreende o fenômeno analisado. O homem é a medida de todas as coisas tornou-se o pensamento mais difundido entre os sofistas, frase esta proferida pelo filósofo sofista Protágoras.

A Filosofia de Sócrates

Em sentido oposto, Sócrates combateria as análises sofistas, alegando que a Verdade, sendo una, imutável e eterna, poderia ser alcançada pela razão humana, sendo esta, a Verdade, inclusive a finalidade e objetivo da Filosofia. Para ele, a humanidade possuía aquilo que mais lhe seria próprio ao humano: a razão e, por tê-la, seria possível compreender as essências das coisas.

  • SÓ SEI QUE NADA SEI

Com o surgimento da polis, a vida pública grega, enquanto espaço de debate e deliberação, tornou o campo fértil para a fecundação e o florescimento da filosofia. Desse modo, Sócrates tornou-se, ao ver da filosofia ocidental, a figura emblemática dessa época. Embora não haja, portanto, nenhum texto que se reconheça como autoria de Sócrates, ele é considerado hoje o modelo do filósofo. Ele, de fato, nada escreveu, contudo, suas idéias estão registradas em um conjunto de obras de autoria de Platão, seu discípulo, denominados diálogos platônicos. Entre as várias obras de Platão as principais são: A República, O banquete, Protágoras, Fedon, Górgias, Apologia de Sócrates. Sócrates é visto como o marco da filosofia ocidental, pois, possuía uma personalidade instigante e questionadora, que não se contentava com respostas formais ou dogmáticas, mas queria ir a fundo a uma questão.

  • A IRONIA E A MAIÊUTICA

N+a praça pública, Sócrates interrogava os homens e instigava-os a refletir sobre si e sobre o mundo e as coisas do mundo.

Sua abordagem era, segundo os escritos deixados por Platão, demonstrar a própria ignorância aos seus interlocutores para que pudessem expor seus pensamentos. Contudo, à medida que os conceitos de seus compatriotas eram expostos, Sócrates começava-os a examinar e aos poucos desarticulava aqueles conceitos, fazendo que seus interlocutores buscassem, em si mesmos, outras concepções. Alguns interlocutores chegaram a perder a paciência com Sócrates, dados a revisão freqüente que tinham que fazer em seus conceitos por causa da insatisfação de Sócrates em aceitá-los. Este modo de abordagem filosófica foi denominado ironia socrática.

Sócrates, portanto, interrogava para saber e, empenhado nessa tarefa, não raro surpreendia as pessoas com as próprias contradições em seus argumentos. Na maioria das vezes, contradições essas resultantes de crenças aceitas de modo dogmático, de pretensas verdades admitidas sem crítica.

Após um intenso debate e na maioria das vezes a falta de uma conclusão ou um conceito satisfatório em seu interlocutor, Sócrates inicia a construção do saber. Desse modo, a ironia socrática deveria ser acompanhada da maiêutica, que significa o trabalho de parto, por vida ao mundo, dar a luz. A maiêutica é, portanto, um movimento interior, intelectual, que o humano pratica a fim de procurar dentro de si a verdade. Numa situação de conflito e de incertezas entre o filósofo e seu interlocutor, depois de realizar o exercício da desconstrução e da negatividade das certezas não evidentes, deve-se, agora, construir um saber interior, fruto da reflexão sistemática, para que possam juntos a dar a luz às verdades, que, no entender de Sócrates, todos têm dentro de si

  • Entendo o método socrático

Sócrates definiu a sua própria sabedoria no diálogo em O Banquete, de Platão:

“Sócrates então senta-se e diz: – Seria bom, Agatão, se de tal natureza fosse a sabedoria que do mais cheio escorresse ao mais vazio, quando um ao outro nos tocássemos, como a água dos copos que pelo fio de lã escorre do mais cheio ao mais vazio. Se é assim também a sabedoria, muito aprecio reclinar-me ao teu lado, pois creio que de ti serei cumulado com uma vasta e bela sabedoria. A minha seria um tanto ordinária, ou mesmo duvidosa como um sonho, enquanto que a tua é brilhante e muito desenvolvida, ela que de tua mocidade tão intensamente brilhou, tornando-se anteontem manifesta a mais de trinta mil gregos que a testemunharam.”

socrates.jpg image by lucaskanCaixa de texto: A imagem ao lado, de Jacques Louis David, de 1787, retrata o momento em que Sócrates recebe seu cálice com cicuta. Repare que os amigos ao redor de Sócrates estão ou tristes e pensativos ou quase em desespero. No entanto, Sócrates esta ativo, recebe o cálice, ao mesmo tempo em que discursa e aponta para o céu, demonstrando que o filósofo deve estar preparado para os mistérios da morte. Ensinar e compreender a realidade que o cerca, é papel fundamental para vida. Dizia o filósofo grego: uma vida sem questionamentos não vale ser vivida.Percebe-se, nesse diálogo, que Sócrates se posiciona humildemente abaixo da sabedoria de Agatão. Essa característica ficou conhecida como a base da metodologia socrática em suas investigações filosóficas. O método socrático constituiu-se de três movimentos fundamentais à postura do filósofo. Primeiro, a compreensão de que o próprio saber não é causa de seu orgulho, ao contrário, o próprio saber é o limite à própria ignorância. Ser humilde, portanto, é reconhecer que nada sabe é reconhecer que é necessário saber além do que se sabe. Segundo, a ironia com que Sócrates interpelava seus interlocutores queria demonstrar não o que Sócrates sabia, mas os limites, as falhas e os preconceitos do pensamento comum que cada interlocutor trazia dentro de si e que o impediam que alcançasse o verdadeiro conhecimento; por último, a maiêutica, era o processo de busca da verdadeira sabedoria, que segundo ele se encontra no próprio sujeito do conhecimento.

Veja o que Sócrates diz sobre o seu método:

“E tendo isso em comum com as parteiras, também sou estéril de sabedoria. É verdadeiro o que muitos censuram em mim, de questionar os outros, sem nunca me pronunciar sobre nada, por ser ignorante. E assim procedo  justamente porque o deus me força a ser parteiro, mas impediu-me de gerar. Portanto, nada tenho de sábio e tampouco trouxe à luz qualquer descoberta genial gerada pela minha alma. Entretanto, se entre aqueles que apreciam estar em companhia alguns, de início, parecem totalmente ignorantes, convindo comigo alcançaram, se o deus assim o permitir, extraordinários resultado: como podem ver eles mesmos e os outros. É evidente que de mim não aprenderam nada e que somente em si mesmos encontraram as inúmeras coisas belas que geraram, mas ajudá-los a gerar, este sim, é mérito do deus e meu.” (PLATÃO, TEETETO)

As perguntas de Sócrates não visavam, portanto, apenas confundir as pessoas e ridicularizá-las diante do próprio conhecimento, mas, ao contrário, visava motivá-las a alcançar um conhecimento mais profundo, não só de si próprias, mas também dos outros, dos objetos e do mundo que as rodeava, provocando nelas novas idéias.

Esses movimentos, humildade, ironia e a maiêutica, eram o seu modo de filosofar; sua “arte de partejar”, de ajudar as pessoas a parir, a dar a luz às novas ideias. Arte que dizia ter aprendido com sua mãe, que ajudava as mulheres a dar a luz a seus filhos. A interrogação de Sócrates expunha os saberes dos homens e, ao mesmo tempo, mostrava o quanto eles não tinham consciência daquilo que realmente sabiam.

Essa atitude fez de Sócrates uma figura singular e lhe angariou alguns amigos e muitos inimigos, por isso foi condenado ao suicídio, tomando cicuta. Embora as atitudes de Sócrates parecessem neutras e sem objetivos precisos, elas questionavam poderes instituídos, valores consolidados e, por isso, também sugeriam mudanças.

Com a ironia, ao trazer à tona os limites dos argumentos comuns, ao mostrar as contradições ocultas na ordem comumente aceita, ao revelar, ao abalar as certezas que fundavam o cotidiano grego, Sócrates convida os cidadãos gregos ao filosofar. Filosofar esse fruto de um processo metódico à elaboração de novos saberes.

Sócrates, por meio de sua atividade de pensar, mostrou que o exercício do filosofar é, essencialmente, o exercício do questionamento, da interrogação sobre o sentido do homem e do mundo. Assim, hoje concluímos que: a) a filosofia não nasce da contemplação do filósofo do próprio umbigo, e sim de um diálogo consigo mesmo e um diálogo com o outro, diálogo necessário à compreensão da realidade que o cerca; b) que a busca pelo saber não quer a construção de um catálogo enciclopédico, o saber pelo saber, mas um conjunto de saberes que tem finalidade para aquele que conhece; c) que a humildade, não no sentido de humilhar-se, mas no sentido de reconhecer os próprios limites, é um movimento necessário ao filósofo; d) que a crítica ao dogma, aos valores, aos conceitos de outros não significa que a crítica é um saber de quem crítica, mas o início à investigação, à interrogação e ao despertar consciente para as possibilidades de conhecimento.

Conhece-te a ti mesmo

O segundo movimento para o alcance de uma Verdade, segundo Sócrates, será a compreensão de si mesmo: “Conhece-te a ti mesmo”, disse o filósofo. Só assim, conhecedor de suas “Falsas Verdades” e das próprias limitações em afirmar algo, que a humanidade poderá superar as ilusões do conhecimento aparente, ou seja, da opinião, e buscar a “Luz do Saber” verdadeiro.

O Método Socrático

O método socrático consistia em seguir três princípios fundamentais para o alcance do saber, são eles: humildade, ironia e maiêutica, que seria a última etapa do processo de abandono das nossas convicções. Na tradução literal do grego, maiêutica significa “parteira”, desse modo, a ela seria compreendida como o momento em que o sujeito do conhecimento estaria pronto para a busca do conhecimento.

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