René Descartes

Um dos problemas da filosofia foi exatamente saber qual é a fonte dos nossos conhecimentos. A razão ou os sentidos? Esta pergunta gerou diversos debates, destacando-se duas correntes filosóficas: o racionalismo e o empirismo. Embora haja também uma terceira corrente que se fundamenta no apriorismo de Kant, que estudaremos mais tarde.

Para o racionalismo, todo conhecimento vem da razão, palavra que tem origem no latim racio. Para os filósofos racionalistas, os sentidos humanos são uma fonte de erros e confusões que acabam atrapalhando o raciocínio humano para a compreensão dos fenômenos da natureza e da realidade dai, pois, que o raciocínio deve se fundar em princípios lógicos para o processo de conhecimento, assim como, afastar-se de qualquer coisa ou situação que possa prejudicar o desenvolvimento desses princípios.

Para o empirismo, todo conhecimento começa da experiência sensorial, isto é, o uso dos sentidos humanos, que vêm o conhecimento. O empirismo acredita que todas as idéias humanas derivam das percepções sensoriais: visão, olfato, paladar, audição e tato. Segundo essa corrente da filosofia, a razão é uma “tabula rasa” desprovida de quaisquer idéias. É como se a mente humana fosse um papel em branco cujas impressões vão sendo feitas a partir das experiências humanas.

  • DESCARTES – AS BASES FILOSÓFICAS PARA O RACIONALISMO MODERNO

René Descarte (1596-1650) foi o primeiro filósofo a pensar a existência das coisas a partir de si mesmo e não o mundo exterior, o sujeito pensante.

Pode-se considerar Descartes como o pensador que alavancou o pensamento científico no período moderno. Junto com Copérnico, Galileu, Kepler e Bacon, Descartes inaugura uma nova perspectiva ao pensamento humano, tanto na concepção da metafísica da filosofia, como na concepção de ciência. Duas obras trazem os pontos centrais da sua filosofia e do seu pensamento científico: a primeira, O Discurso Sobre o Método, obra em que funda o método cartesiano na busca pelo conhecimento verdadeiro, que será a base para o desenvolvimento do pensamento científico; e Meditações, obra em que funda os princípios do cogito (penso, logo existo), uma verdade certa e segura acerca do pensamento humano.

Pra iniciarmos nosso estudo sobre Descartes e sua teoria do conhecimento, cabe antes compreender o que vem as ser o pensamento sobre a filosofia e a ciência.

A filosofia, segundo ele, tem por finalidade buscar um conhecimento claro, distinto e verdadeiro, sobre tudo aquilo que pode ser conhecido. No entanto, para que esse conhecimento possa ser alcançado, a razão deve ser orientada a distinguir o falso do verdadeiro, o obscuro do claro, o infundado do fundamentado. Isto significa dizer que é papel da filosofia trilhar os caminhos que se atingiram o conhecimento verdadeiro, formando assim as bases para um surgimento de uma ciência que se fundamente pela unidade do conhecimento. Ao contrário do que dizia Aristóteles, Descartes acredita que para as ciências há um único conhecimento e não vários conhecimentos. As ciências estão entrelaçadas pelo conhecimento, pois por serem unidas dependem umas das outras. As variedades das coisas são infinitas e inapreensíveis, seria, pois, desperdício querer abraçar e compreendê-las na sua totalidade de conceitos.

Para que se possa fazer uma ciência que se aproxime da verdade, Descartes elaborou um método de pesquisa que visa colaborar com a busca do conhecimento. O método cartesiano, como ficou conhecido, procura criar um ambiente seguro e fértil para as argumentações científicas e filosóficas, afim de que sirva como base à pesquisa e que se possa gradualmente avançar sobre o conhecimento das coisas. Desse modo, o método é um conjunto de regras que busca estabelecer uma ordem e sistematização para se alcançar o conhecimento, a fim de se evitar erros e garantir um resultado, se não verdadeiro, ao menos próximo à verdade.

Ao propor o método, Descartes procura não ensinar a conhecer, mas antes estabelecer princípios que conduzam a razão às verdades. Para ele, todo homem possui razão ou bom senso, todavia, o erro dos seus julgamentos e juízos está em não bem aplicá-la na busca do conhecimento. Para que se possa alcançar a verdade o homem deve estar dotado de um pensamento livre de pré-julgamentos e preceitos que comumente impregnam a razão humana.

Descartes acredita que a ciência se faz por conhecimentos certos e evidentes. Não há ciência do provável, qualquer ciência que se afirma sobre o provável trata de “probabilidade e não de conhecimento. Para ele, uma ciência do possível ou não possível não é, senão a reflexão da nossa ignorância diante de parte do problema. Assim, aconselha, quando não se tem a certeza de uma verdade é preferível tomá-la como falsa, porém, isso não significa que seja falsa, mas assim será até que se retirem todas as dúvidas que sobre ela paira. A humildade em reconhecer que o conhecimento sobre determinado objeto não seja total é, pois, o instrumento para melhor exercitar esta regra.

Sempre que se encontrar dois juízos contrários a respeito de algo, é aconselhável se manter na mesma distância de ambos, porque se um deles é uma verdade evidente e certa, jamais aceitaria outro em contrário.

Descartes é um crítico do silogismo aristotélico como forma eficaz de buscar o conhecimento. Para ele, o silogismo é apenas uma técnica de argumentação lógica e não um modo de raciocínio, pois para se estabelecer suas verdades é preciso que se tenha e aceite os juízos estabelecidos em suas premissas. Somente a Aritmética e a geometria estão isentas de todo defeito e incerteza, pois utilizam duas vias para o conhecimento: a intuição e a dedução. Afirma: “A intuição é conceito da mente pura e atenta tão fácil e distinto que nenhuma dúvida fica acerca da sua compreensão; de outro modo, aquilo que nasce apenas da luz da razão e que, por ser mais simples, é ainda mais certo do que a dedução.” A intuição é evidência certa que acompanha o raciocínio das coisas simples, por exemplo, segue que 3+1=4 e 2+2=4, sem nenhuma enunciação a mais, somente com o conhecimento que temos de aritmética podemos dizer com certeza que 3+1=2+2, está terceira proposição se forma somente pela intuição que se obteve das duas primeiras proposições. (…) “Por dedução entende-se o que se conclui necessariamente de coisas conhecidas com certeza.(…) com tanto que sejam deduzidos de princípios verdadeiros, já conhecidos, por um movimento contínuo e ininterrupto”.