O meu limite de vida

Meu mentor pediu-me para colocar em poucas linhas o que seria a minha trajetória de vida. Meditei e cheguei a conclusão que a minha história se encerra nas linhas de Sartre: “sou finito”. Tudo em mim há limites. A minha existência, a minha razão, os meus desejos, as minhas alegrias e as minhas tristezas. Nele, no limite, está o que sou.

Sonhei um dia sair da vida singular como um dia muitos brasileiros acreditaram poder sair. Sonhei um dia estudar e me formar em algo que pudesse realizar com alegria e destreza. Sonhei um dia amar e ser amado. Mas entre sonhos e realidade, sonhei e vivi. Não o que queria ser, mas o que pude ser. E este ser é, acredito ser o melhor possível, como diria Leibniz.

Na universidade da vida, aprendi que o diploma de Filosofia da USP, o de especialização em Educação em Tecnologia pela UFLA-Federal de Lavras e o de mestre em Filosofia da Federal UFABC em Teoria do Conhecimento, apenas somariam recursos necessários para os avanços dos meus limites. Naquela universidade, aprendi que sair do bairro da periferia de São Paulo e conquistar outros espaços na capital paulista, não seria mais importante do que lembrar que lá na periferia, seja na Vila Jaguara, seja no Grajaú, onde vivi alguns anos da minha juventude, estariam os limites do meu ser e que haveria, nestes lugares, a minha motivação de ampliar os laços de amizade e respeito por quem ali me ensinou os meus próprios limites. Amizade e Respeito que me fizeram sonhar e retornar à periferia e lecionar alguns anos em escolas públicas para aqueles que como eu sonharam um dia sair da periferia.

Ainda naquela universidade da vida, aprendi que o saber, seja vindo da educação particular ou da educação pública, onde estudei por toda minha vida, pouco importa, não lhe faz ser único, ao contrário, ele apenas é um instrumento para se ter consciência de que aquilo que se sabe nada se sabe, parafraseando Sócrates. E que o saber mais sofisticado, não importa a origem, nunca será maior que qualquer outro saber, por mais simples e singular que lhe pareça, e nem aquele que acredita que sabe muito é, pois, superior ou inferior aquele que pouco sabe. Pois, os nossos limites não estão no nosso conhecimento, mas na nossa humanidade.

Por isso, ainda hoje procuro compreender quais são os limites da minha humanidade e, longe de encontrar as respostas, percorro ainda os corredores das escolas e universidades procurando outros espaços e aprendendo mais para alcançar e ampliar os meus limites. E talvez o mundo digital seja um lugar que, com a minha limitada filosofia, possa ampliar os limites junto a outros ao ensiná-los e que, quem sabe por meio desses pequenos espaços limitados nos outros, que eles corajosamente me concedem, eu possa, finalmente, alcançar os meus limites.

Porfirio Amarilla Filho

Professor de Filosofia