John Locke (1632-1704) é considerado o fundador do empirismo e pai do Liberalismo, cujo escritos influenciou o iluminismo Europeu. Membro da corte inglesa, Locke propagou em meio a corte seus pensamentos republicanos contra o absolutismo e, por isso, foi acusado de traição.

Locke tornou-se referência para o Século das Luzes e teve como críticos de sua obra Leibniz e Kant. Influenciado pelos pensamentos de Bacon, Locke acreditou que o conhecimento, a formação de idéias, começaria pelos sentidos. Em Ensaio sobre o entendimento humano afirma:

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Se os meus leitores estivessem livre de todo preconceito para convencê-los da falsidade bastaria que eu lhe mostrasse como os homens podem adquirir todos os conhecimentos que possuem simplesmente utilizando as suas faculdades naturais, sem recorrer a qualquer noção inata; e como podem chegar à certeza, sem precisar de tais noções ou princípios originais.”(LOCKE IN APUD NICOLA, 2005, p. 269)

A afirmação de Locke sobre a fonte das idéias na razão humana é contundente: a mente é uma folha de papel em branco, nada há nela que não tenha sido dado pela experiência. Tudo quanto é conhecido é sempre aprendido ou pela percepção do ambiente ou sobre a reflexão sobre a própria condição interior. De outro modo, a mente limita-se a reelaborar sob a forma da abstração dados e observações que recebe do mundo exterior. Tais dados, por conseguinte, não tem outra fonte senão os sentidos humanos.

Para Locke, o objeto do conhecimento é a ideia simples, que são sugeridas à mente por meio dos sentidos. A razão, enquanto gabinete de acumulo de sensações, tem apenas o poder de repetir, comparar e uni-las em quantidade e variedade quase infinita. Em Locke, nota-se que a expressão pensar, diferente de Hobbesrecebe seu significado mais amplo, que se estende a todas as atividades possíveis da cognição.

O conhecimento, portanto, tem sua base: a) na experiência do mundo exterior que se apresenta aos sentidos, ideias de sensação; b) sobre aquilo do mundo interior que torna o entendimento objeto de si próprio, ideias de reflexão.

No primeiro caso, o acordo ou desacordo entre as ideias são as percepções imediatas, que nos vêm por intuição; no segundo, por demonstração, mediante a mediação de uma ideia ou um conjunto de ideias.

A percepção entre quaisquer ideias em acordo ou desacordo, aqui de modo necessário, pode ser imediata ou por meio de outras ideias. No entanto, cada passo na demonstração e representação de uma ideia na razão, é ela mesma uma intuição, uma vez que a comparação entre ideias será imediatamente percebido o que é, sendo que todo o processo se reduz a pura intuição estruturada em reflexão, independente do seu conteúdo de verdade.

Assim, nenhuma ideia é mais clara e distinta do que aquela que a percepção clara e distinta tem, isto é, as ideias simples, que se dividem em três categorias: as ideias simples de sensação (cores, sons, odores etc.); as ideias simples de reflexão (espaço, figura, repouso, movimento etc.) e as ideias simples de sensação e de reflexão (potência, existência, universal etc.).

Em Locke, encontram-se a vontade e o entendimento como duas faculdades que possibilitam o conhecimento, que ele denomina como poderes. De um lado, a vontade ordena a escolha de qualquer ideia ou o seu abandono; e é por meio dela que o homem orienta a sua ação e se põe em movimento, ou não. Por outro, o entendimento ou poder de percepção é quem possibilita o ato de intelecção pela percepção das ideias na mente, pela percepção do significado dos sinais e pela percepção da conexão ou rejeição que há entre ideias. Desse modo, a sensação é aquilo que todo conhecimento humano se funda, isto é, a sensação alimenta, pela percepção sensível de uma ideia simples, as faculdades de conhecimento.

O papel da razão no conhecimento, portanto, consiste em discernir e distinguir uma variedade de ideias, pois sem esta faculdade não seria possível perceber as diferenças e qualidades dos objetos. Assim, as ideias representam coisas que precisam da habilidade da razão para discernir e distinguir os estados em que elas se apresentam, para que possa apreender e usá-las nas necessidades e usos da ação humana.

Desse modo, Locke compreendeu que, por um lado, o intelecto é passivo simplesmente por refletir a realidade de modo objetivo, ou seja, são cópias exatas das coisas; por outro lado, o intelecto é ativo ao reformular tais ideias em modos, relações, combinações, junção, abstração etc., atos pelos quais conhece as coisas, que nada mais são do que operações do intelecto, dando desse modo uma complexidade a elas, denominadas por ele de ideias complexas.

Segundo Locke, as ideias estão na mente e podem receber alterações em si mesmas pela razão, todavia, o poder de produzi-las na mente está fora dela mesma. Esse movimento é o que Locke denominou como qualidade, que é poder do sujeito em produzir ideias complexas a partir de ideias simples de sensação ou de reflexão ou ambas. Locke distinguiu as qualidades em primárias e secundárias. As primárias se referem às ideias reais dos objetos, isto é, que se encontram neles, as secundárias se referem às combinações das qualidades primárias.

Assim as ideias complexas se distinguem da seguinte forma: 

  • De modos, que são ideias compostas de outras ideias da sensação;
  • De substâncias, que são ideias que possuem um substrato no qual elas existem, mas que não sabemos, de fato, do que se tratam;
  • De relação, que são ideias que surgem do confronto e da comparação das ideias entre si;

Disso resulta que o julgamento, embora seja mais uma das operações praticada pelo intelecto humano, é fundamental à compreensão das coisas, pois, segundo Locke, o julgamento trata de separar as ideias entre si, objetivando perceber as suas menores diferenças para que o sujeito não se equivoque exatamente por causa das semelhanças entre ideias e suas afinidades, evitando, assim, não tomar uma ideia pela outra.