O que é a vida?

Às vezes, as pessoas me procuram para me perguntar sobre a vida. Algumas delas acham que eu, como filósofo, poderia ajudá-las a compreender os momentos que elas atravessam nos seus relacionamentos pessoais, e quando digo aqui relacionamento não me referindo apenas aos amorosos, digo relacionamentos pessoais gerais, como a amizade, o trabalho, a família etc. Mas, infelizmente, ou felizmente, não sei bem ao certo, pois, percebo que os colegas psicólogos hoje estão tendo um trabalho desgraçado para dar conta da demanda de tantos problemas psíquicos que surgem nas pessoas neste nosso dia a dia. O desiquilíbrio psicológico parece ser um desafio contemporâneo a ser superado pela psicologia.

Mas vamos ao nosso tema. A verdade é que infelizmente a filosofia não pode colaborar muito com as questões psicológicas, senão apenas fornecer alguns subsídios para a reflexão de como podemos conduzir o nosso pensamento em determinadas situações. Como quando alguém me pergunta sobre o que é a vida, Ora, o que é a vida como conceito talvez eu possa dar algumas respostas, mas como definir a sua vida como seria para cada um de nós, ai fica difícil.

Mas vamos a vida! Há três caminhos para a nossa reflexão sobre a vida como conceito: o primeiro, caminho é vê-la pela biologia, isto é, uma visão mais científica da coisa. Nesta visão, a vida é a junção de alguns fatores biológicos e genéticos que se conciliam para gerar um Ser biologicamente existente. Ser este que se desenvolve nas condições naturais e vem ao mundo. Ganha consciência e mais ou menos a partir dos 25 anos como a apodrecer. Sim! A vida biológica inicia seu processo de degeneração a partir dos 25 anos. E de lá pra cá a única coisa que resta para nos é morrer. Entramos e saímos do mundo como um ser orgânico que se desenvolve e que, em determinado momento, começa a apodrecer até o momento final e fatídico da morte. Neste caso, a vida é a morte. Somos biologicamente determinados a morrer. E não adianta você achar que os energéticos ou os suplementos lhe darão vida, ao contrário, eles apenas lidam com sobrevida ou com o tempo de vida. É claro que você pode querer viver 90 ou 100 anos, mas estes tempos, a mais ou a menos, não mudam o fato da sua verdade biológica: você vai morrer. Em um determinado momento vamos constatar que a vida é a ausência da morte e a morte é a ausência de vida. Nesta luta constante, dialética, entre vida e morte. A vida biologicamente é a surgimento de ser orgânico, que se desenvolve e, após um determinado período, morre.

O segundo caminho que nos leva a reflexão é pensar a vida do ponto de vista da religião. A vida aqui apenas seria uma etapa para uma outra vida. Há aqui um elemento comum em todas elas, pelo menos em quase todas, que nos dá a possibilidade de pensar que há sim uma vida após a vida. E aqui, nesta perspectiva religiosa, a vida lhe leva a vida. Há uma vida pós-vida, em que a morte nada mais que apenas uma passagem, uma fase, uma etapa a ser cumprida, morrer é apenas um lance de escada para alcançar um outro patamar maior.

Na comparação entre a morte na biologia, na ciência, e a morte na religião, vemos que enquanto na ciência: a morte é uma determinação final, apenas morre-se e ponto; na religião ela não é o final é uma passagem. Mas, anote aí, há sempre, um “mas” quando a coisa começa a ficar boa, ai é que vem a pergunta: uma passagem para onde? Para a salvação ou para a danação, conforme a religião. Para algumas, esta danação é o retorno a esta vida terrena; para outras o inferno. No entanto, não importa em qual religião, há uma passagem para uma vida que supomos ser melhor que esta.

Porém, o viver na religião tem lá as suas complicações.

A vida para a religião tem exigências e tais exigências passam por valores que devem ser seguidos para que possa ser alcançada a tal pós-vida prometida. Para melhor exemplificar a nossa compreensão, vamos fazer um paralelo da vida ao contrato de um seguro de vida. Isto é, há na religião, uma proposta de seguro de vida pós-vida, mas, para que você alcance o prêmio do seguro, isto é, pós-vida, você tem de ler os termos do contrato desse seguro. E notem, o prêmio do seguro, só ocorrerá após o sinistro, isto é, a morte. E ai é que entram as vistorias do sinistro. Para receber o prêmio, você precisa estar em dia com o contrato que você fechou com a seguradora, isto é, com Deus. Sim, você tem que ter em mãos o contrato do seguro que Deus ou deuses estabeleceram para que você tenha direito a esta vida pós-vida. E notem não há nenhum chat ou telefone 0800 para receber as orientações, no máximo há um representante humano que, tal qual você, apenas apoia a perspectiva de vida pós-vida na mesma carta de crédito que você tem: a fé. Isto significa dizer que na religião a vida e a pós-vida é um ato de fé que, em que você segue os termos do contrato assinando entre você e Deus. Aqui, a fé é um fundamento para explicar a vida e consagrá-la aos objetivos constituídos pela religião, no qual você, como crente, deve seguir. Se não o fizer, não faz o menor sentido você me dizer que crê em um deus.

Ainda neste exemplo, é como você fazer um seguro e dizer que tem seguro, mas não pagou as mensalidades. Lamento informar, neste termos você não tem nada. Você diz que tem o seguro, porém, na hora do sinistro, na vistoria do seu contrato, você não terá a sua garantia de vida pós-vida, ou seja, não receberá o seu prêmio, pois, você não cumpriu o contrato.

Por isso, a vida na religião deve ser entendida pelos princípios da fé que garantem os objetivos pessoais e explicam, de modo sobrenatural, o sentido da vida para aquele que nela crê. Mas cabe ressaltar, que este sentido da vida na religião foge ao entendimento de alguns humanos, exatamente por não ser algo que se acredita ser universal. A fé, aqui, é um dado extramente subjetivo, pois, está na consciência de cada um de nós de acreditar que esta vida é apenas uma passagem para uma outra.

Pois, retomando, vimos que a vida na ciência tem uma determinação que é a morte e vimos que a vida pela religião, há, não uma determinação, mas uma finalidade, a salvação.

Pois bem, nos falta analisar a vida como conceito da filosofia. A filosofia toma a vida por princípios muitos parecidos com os da ciência, em que o princípio maior é: a vida é finita. Há um ponto determinante na vida e este ponto é a morte. Somos finitos e, como tal, nascemos para morrer.

Ora, mas a questão que fica é: se vamos morrer, para quê então viver? Alguns filósofos pensaram a respeito dessa questão. Sócrates, na Grécia Antiga, foi um deles. A partir, dela, podemos tentar entender o que é a vida. Na obra Apologia de Sócrates temos um panorama muito preciso do que pensou Sócrates sobre a morte. Nesta obra, o filósofo grego traz um pensamento sobre a vida e nos diz, de modo assustador, que “uma vida não examinada não vale a pena ser vivida”.

Este pensamento socrático é assustador pois nos remete a pensar sobre o que é esta frase: “uma vida não examinada não vale a pena ser vivida”. Ora, quais são os objetivos de uma vida humana que recebe um valor que permite dizer: eu vivi uma vida bem vivida? O que está em jogo nesta reflexão? Ora, sabemos que a morte é o determinante da vida, como eu disse, vamos morrer; o que faz uma vida ser vivida então não é a sua finalidade, pois, o final é a morte, mas é o caminho que nos leva até ela: uma vida examinada. A frase não vale a pena ser vivida, não se refere a um Exame, a uma análise, que se não for feita não vale a pensa viver. Para Sócrates, cada passo dado neste caminho de vida tem que valer a pena, não somente como Sócrates, mas como humano, pois, de fato, examinar, analisar, compreender é, pois, o sentido de uma vida que faz uso da razão, ou seja, da sua capacidade de Ser Humano. E aqui está o ponto alto da Filosofia de Sócrates: o Ser Humano que pensa e age como humano “vive”. Um humano cuja condição existencial não se estabelece em um caminho sozinho, mas junto ao outro.

A vida é um caminho cujas escolhas são dadas por nós, na consciência que temos de nós mesmo e do mundo. E aqui entra a frase de Sócrates que eu gosto muito e que se bem entendida, coloca-nos no centro da nossa vida: “Conheça-te a ti mesmo”. Um conhecimento de mundo que exige que eu seja conhecimento de mim mesmo. E aí vem a pergunta que se exige nesta minha existência, que exige o exame da razão sobre mim mesmo: “quem eu sou?”; cuja resposta primeira somente pode ser uma: eu sou humano. Por isso, a vida a que Sócrates se refere é uma vida formada por pessoas e coisas, em que o cuidado desse caminho na vida até a fatídica morte é saber examinar quem são as coisas e quem são as pessoas.

De fato, somos humanos por que somos um legado de uma existência humana. Existência que não começou agora com a minha vida, mas com a vida humana lá traz na primitividade e que se estendeu até o diz de hoje. E aqui talvez seja o maior dos motivos para que as pessoas me procurem querendo saber “o que é a vida?”, pois, ao que parece estamos perdemos a nossa capacidade de compilar em nós mesmos quem somos. E se, de fato, estamos perdendo esta capacidade de nos entender, volto na visão da Filosofia de Sócrates para reafirmar a sua convicção: uma vida não examinada não vale a penas ser vivida.

Pense nisso!

Agora se você me perguntar o que é ser humano? Ai é tema para outra reflexão.

Elogio à sensibilidade

Um dos pontos altos da discussão da Filosofia repousa sobre as questões que envolvem a Arte como uma capacidade humana de produzir significados e representações a si mesmo e como forma de dar sentido a realidade.

Desde Antiguidade, a Arte ronda as questões filosóficas acerca do seu papel diante do desenvolvimento humano em expressar nela os seus aspectos racionais e vitais ao próprio ser humano. Platão, por exemplo, não lhe designou um papel importante ao ser humano. A seu ver, a arte traria, em si mesma, certa ilusão, ou melhor, certa capacidade de produzir simulacros à razão humana e, consequentemente, à capacidade do ser humano de identificar as coisas na realidade como verdadeiras. Para Platão, o Belo, como expressão máxima da essência das coisas, estaria na ideia que o ser humano compõe o mundo ao seu redor, em que somente na razão se encontrariam as verdadeiras essências contidas no mundo. A realidade em si mesma, na concepção platônica, nada mais seria que uma cópia dessas ideias, ou seja, das essências verdadeiras do mundo. É neste sentido que Platão toma o papel do artista e, numa dura crítica a Homero, impõe-lhe o rótulo de enganador da realidade, em que o artista faria parecer real aquilo que não é, projetando na razão humana simulacros de uma realidade que se apresenta não como ela é, mas como ao artista lhe parece ser, afastando, assim, a capacidade dos observadores em compreender aquilo que são as verdadeiras essências das coisas.

Na mesma esteira de Platão, Santo Agostinho retoma a questão da Arte e lhe designa apenas um papel catequético. A seu ver, a Arte, por despertar a sensibilidade, promove o domínio dos desejos, pois, desperta em nós o prazer, a emoção natural e instintiva que nos faz afastar a razão das questões morais e piedosas da fé e, portanto, afasta-nos de Deus. Mesmo aquelas Artes, como as músicas sacras que se elevam como louvor a Deus, Agostinho entende que os reais motivos da contemplação a Deus não estão contidos Nele mesmo, mas no prazer que os acordes de louvores imprimem na nossa sensibilidade, prazer este que nos motiva a pensar em Deus não por Ele mesmo. Com efeito, Agostinho entende que o louvor que se presta a Deus por meio da Arte é, pois, motivado pelo prazer que ela nos provoca e, deste modo, não se louva a Deus pela razão, mas pelos prazeres que os sentidos nos provocam.

Todavia, a Arte recebeu um novo alento na modernidade. Aqui os artistas renascentistas retomam as questões mais humanistas sobre ela. São eles que redirecionaram a Arte como uma questão filosófica da própria humanidade. Ela, com efeito, alcança, na Filosofia, o auge da reflexão sobre a capacidade do ser humano representar a si mesmo e a realidade. A Arte receberia, neste ver, a tarefa de conduzir o ser humano à reflexão de si mesmo, sendo designado o papel de fornecer subsídios, ao ser humano, capazes de torná-lo aquilo que ele é: um ser dotado de sensibilidade e racionalidade. Trazendo-lhe, dessa forma, as essências de Ser em si mesmo o que ele é.

No entanto, aqui há uma exaltação da razão diante da Arte, em que, por mais que possa parecer sensibilidade, o domínio da razão, como fruto de uma reflexão, pensada, organizada e deliberada, se expressa como organizadora da Arte em si mesma, dando-lhe, como uma característica da modernidade, a confiança necessária para ser o que é, como expressão humana, somente por meio da razão humana. O que faz da Arte não apenas uma expressão da sensibilidade e da emoção humana, mas, antes, uma expressão racional de si mesmo. Disso decorre que a realidade humana na Arte se expressa pela razão, em que ela recebe e torna-se humanizada por meio dessa capacidade racional.

Nietzsche, no século 19, talvez seja o primeiro filósofo a compreender a Arte nos domínios realmente humano. Em sua obra Humano, Demasiado Humano, ele retomou a questão e imprime a Arte um significado que, a nosso ver, poucos filósofos se predispuseram a refletir. Primeiramente, porque afasta dela o caráter imutável da verdade e de uma subsistência eterna. Aqui a Arte refletirá o caráter mutável da própria essência humana. O ser humano mudou ao longo do tempo e junto a ele a Arte, que é a maior expressão de si mesmo. Isto significa dizer que para Nietzsche, a Arte não tem o mesmo caráter de importância que as outras atividades humanas, como a técnica, a ciência ou mesmo a própria capacidade humana de raciocinar. Isto porque a seu ver a Arte está no domínio da vontade humana, e como tal, é a expressão primeira da nossa humanidade. “O homem científico”, mencionaria Nietzsche, “é continuação do homem artístico”.

Segundo, porque Nietzsche dá a Arte um significado muito mais humano, pois, ao designá-la como expressão da nossa vontade, impõe a nós a reflexão de que tudo o que produzimos até agora não foi a partir de uma razão que busca a superação da própria natureza, mas a partir de uma vontade humana em querer expressar ao mundo o que é em si e por si mesmo como Ser no mundo. A Arte reassume o seu papel verdadeiro de dizer quem somos, pois, de fato, é ela quem designa a capacidade universal do ser humano de expressar, ao longo do tempo, quem foram, cada um de nós, no contexto da nossa própria existência e da nossa vida. Se hoje somos técnicos, científicos, tarefeiros, somos por causa de uma razão que imprime em nós, seja por meio da cultura, das leis, das motivações, os domínios da nossa vontade.

Todavia, antes de sermos razão, desde a nossa infância, somos vontades. E por assim ser, as vontades humanas são, instintivamente, a nossa maior expressão como seres no mundo. À medida que racionalizamos as nossas vontades, deixamos uma parte do nosso ser para trás, ou como diria Nietzsche “o homem doente do homem, doente de si mesmo”.

De fato, na racionalidade deixamos de ser sensibilidades e emoções, para nos entregarmos a uma razão designada incapaz de compreender o que somos. Nota-se, contudo, que a vontade a que se refere Nietzsche não é aquela que é em você individualmente, ou seja, única e sua. Nietzsche, com efeito, se refere a uma vontade potência humana de ser humano em si mesmo e por si mesmo em convívio com outros humanos. Disso decorre, que o particular não se sobrepõe ao universal, mas, ao contrário, em que o universal se sobrepõe ao particular. Neste sentido, a Arte não expressa o ser de Zé nem de Mané, mas o Ser existencial, que vive e morre, não pela sua própria capacidade de ser Zé ou Mané, mas pela sua própria capacidade de Ser Humano, de viver. Em outras palavras, a Arte entendida no pleno domínio de si mesmo diante do outro, não pela sua capacidade de ter uma razão moral nem científica que suprime a vontade, mas pela própria vontade de querer Ser Humano. Ser em vontade potência para a Vida. E aqui uma Vida não mais minúscula, mas maiúscula, que revela o Ser e suporta os enganos e as contradições da vida em si mesmo. Uma Vida que se apresenta na Arte, como a capacidade do ser humano de revelar em si mesmo a sua vontade potência. A Arte é, pois, neste sentido, o retorno à humanidade e, consequentemente, um retorno à Vida, que pode ser expressada na mais singela representação de um par de mãos espalmadas sobre uma rocha qualquer em um tempo qualquer.