4 Princípios para você educar o seu filho para o sucesso no conhecimento

Se você tem um projeto de Educação para o seu filho e acha que este projeto se resume a mandá-lo para escola, lamento informar que você talvez não tenha tanto sucesso assim. A escola não se resume em todo o processo educativo das crianças hoje. Quando analisamos o processo de educação dos indivíduos na sociedade hoje, do ponto de vista do conhecimento, percebemos que o conhecimento não é apenas o ponto chave dessa questão. Embora a nossa sociedade tenha se transformado em uma sociedade do conhecimento, que vem se projetando desde a modernidade, que se configurou definitivamente no Iluminismo e no Positivismo, o projeto educativo de um indivíduo nesta sociedade requer a compreensão de outros aspectos importantes para a formação do sujeito do conhecimento.

Ter conhecimento não é suficiente.

É necessário estar preparado para adquiri-lo. E aqui exponho os quatro princípios que são necessários para que ele seja inserido no limiar da sociedade do conhecimento com sucesso, são eles: autodidatismo; o autoconhecimento; autonomia e autodisciplina.

O primeiro, o autodidatismo requer que seu filho desenvolva a habilidade de aprender sozinho. Isto é, que ele saiba lidar com o desconhecido e tenha a capacidade de desenvolver em si mesmo os processos que se referem a ele, para que possa revelar para si mesmo o desconhecido. E como desenvolvemos esta capacidade? Estimulando a aprender. Despertando na criança a curiosidade sobre tudo que há a sua volta. Isto significa dizer que você deve ampliar, nos ambientes mais comuns da sua rotina diária com ele, as formas de percepção do conhecimento. Questioná-la sobre o que ela sabe de cada coisa ao seu redor. Por exemplo, você já perguntou ao seu filho sobre o que ele sabe sobre o pão? Será que o pão pode ser entendido apenas como um alimento? Existe questões políticas, culturais, sociais quando procuramos definir o que é o pão? Lembre-se: o que move um indivíduo nas busca do conhecimento é a curiosidade de saber, isto é, a sua ignorância. Aqui o amadurecimento intelectual e emocional de não saber visa afastá-lo das fórmulas prontas para o conhecimento, em que ter conteúdo não é decorar um material didático, mas antes é ser produtor da própria busca do conhecimento.

O segundo ponto, o autoconhecimento e a autonomia são o ponto chave para o desenvolvimento da criança. Aqui, conhecer torna-se um processo de autoconhecimento, pois, ela deve tomar consciência de si mesma em todo este processo de conhecimento e, ao mesmo tempo, desenvolver a autonomia para buscar este conhecimento. Primeiro, para reconhecer, em si mesma, quais são as áreas do conhecimento em que ela se posiciona melhor; segundo, ter consciência de que o conhecimento é uma capacidade inerente a ela mesma, pois, o que a faz “ser humano” é ter a capacidade de conhecer as coisas ao seu redor e saber lidar com elas para o desenvolvimento próprio, não só como humano, mas também pessoal.

E aqui é necessário que a criança tenha consciência da sua autonomia, da sua independência para o conhecimento. O importante aqui é que perceba que somente ela promove aquilo que deve ser aprendido, pois, ninguém aprende por ela. É necessário que a criança tenha a consciência de que não há dependência de outro no saber, mas apenas a independência dela em querer saber; que o outro não é o conhecimento, mas parte do processo do conhecimento. O Google está lá com todo o conhecimento possível e imaginável, porém, ele apenas está lá. Para saber o que ele tem de conhecimento e preciso querer ir até ele.

E, por isso, é fundamental que ela conheça a si mesma, para compor em si mesma os próprios limites e as próprias dificuldades no conhecimento e, desse modo, seja ela o sujeito autônomo do próprio conhecimento. E aqui vai a dica mais importante para você: não faça do seu filho um receptor do conhecimento, mas um produtor de conhecimento. É necessário que ele se reconheça como sujeito do próprio saber e possa direcionar por si mesmo os caminhos que o conhecimento pode lhe possibilitar.

E, por último, a autodisciplina. Aqui, é importante que a criança compreenda que estudar, hoje, é ter regularidade, em que conhecer não é passar horas e horas estudando, mas, ao contrário, é dar a si mesmo o tempo para estudar.

Costumo dizer que se os pais pegam seus filhos e estabelecem a hora que ele deve estudar em casa, eles não fazem mais do que estudar por seus filhos. Pois, o tempo de estudo aqui não é estabelecido pelo sujeito que aprende, mas por quem quer que eles aprendam. O pai é quem estuda e não o filho. Isto significa dizer que pôr o seu filho com a bunda na cadeira e exigir que ele estude, você não está mais do que tirando a consciência dele de conhecer por ele mesmo, tirando-lhe a autonomia dele em lidar consigo mesmo com as próprias escolhas, pois ele não executa a ação por si mesmo, mas porque você quer que ele a execute.

E se ele ficar olhando pro lado com cara de paisagem durante este momento de estudo, a culpa não é dele, pois você não o ensinou a querer estar aqui. Por isso que educar dá trabalho. É preciso repetir sempre, sempre e sempre que a criança deve estudar, que deve dispor de um tempo para si mesmo no conhecimento; que deve compreender que a falta desse tempo agora pode resultar em dispor de um tempo muito maior no futuro. E isto, como pai, deverá ser repetido várias e várias vezes.

Assim, o desafio de projetar a educação de seu filho, não se resume em encontrar uma escola para que ele aprenda, mas antes é gerar condições fundamentais em si mesmo para que ele aprenda a conhecer, a se conhecer e se movimentar no conhecimento por si mesmo, em que o conhecimento passe a ter um valor para ele mesmo e não apenas um caráter prático e utilitário, que o coloca como um ser passivo diante de si mesmo.

Pense nisso!

A banalidade do Mal de Roberto Alvim

Os recentes acontecimento ocorridos no governo federal acerca do desconcertante pronunciamento em vídeo do Secretário Roberto Alvim, do alto escalão do governo na área cultural, contendo um plágio (pra não dizer descarada cópia) do importante membro da liderança nazista Joseph Goebbels, espantou a todos, inclusive a mim. Independente das questões que envolvem o governo que exerce o poder e a nossa simpatia por ele ou não, a reflexão que este episódio revela não poder se deixada para trás.

É impossível se deparar com um episódio deste, sem se reportar às consequências que o pensamento guiado pelos valores nazistas ocasionou à humanidade. Não se trata de comparar um ou outro pensamento, ou um e outro governo, que possam ser considerados quando refletidos isoladamente. Trata-se de compreender, principalmente neste caso, o todo dessa estrutura de pensamento e como este todo refletiu num contexto totalmente contrário daquilo que, como humanos, buscamos: que é o nosso desenvolvimento a partir da nossa própria consciência como tal.

Por isso, neste contexto, é impossível se deparar com tal quadro da realidade sem se indignar e sem levar em conta os pensamentos de Hannah Arendt em seus estudos acerca da Banalidade do Mal no contexto nazista.

Quando Arendt analisa o processo do julgamento do nazista do Terceiro Reich Otto Adolf Eichmann, julgado em Jerusalém como um dos organizadores do Holocausto, em sua obra Eichmann em Jerusálem, um relato sobre a banalidade do mal, um pensamento me chamou muito a atenção sobre as questões que envolviam as ações daqueles que estavam submetidos aos mandos do poder nazistas, que, segundo alguns argumentos dos soldados nazistas, estavam apenas seguindo as ordens do poder hierárquico do Terceiro Heich, diz ela: “O problema de Eichmann era exatamente que muitos eram como ele, e muitos não eram nem pervertidos, nem sádicos, mas eram ainda mais terrível e assustadoramente normais” (Este trecho encontra-se na página 299, da edição da Editora Schwarzc). O ponto de reflexão de Arendt é tentar entender como um cidadão comum, com valores morais convenientes ao convívio em sociedade, certo de que os seus princípios podem produzir o Bem para o contexto da sociedade em que vive, permite, no contexto dessa normalidade humana, se alinhar a ações tão vis e tão deploráveis a existência humana, como aquelas factualmente ocorridas nas ações nazistas. Como um sujeito, que se diz dotado de empatia, de crença divina, de princípio de humanidade, pode se alinhar ao contexto de barbárie e extermínio executado pelo poder nazista?

A primeira resposta possível, e talvez a mais óbvia, que Hannah no faz pensar seria aquela que o medo de cessar a própria existência motivou tais ações; a segunda resposta, não tão evidente assim, é aquela que nos remete ao campo da Filosofia, entendendo que o conceito de ação racional sobre o Bem e o Mal foi dimensionado em outra esfera de compreensão diferente daquela que procuramos a todo instante pensar, repensar e desenvolver e que faz supor que Eichmann “perdeu” a noção de Bem e Mal.

E aqui está a questão que remete a considerar o que é esta “perda” de consciência do Mal. A resposta de Hannah é simples, que de tão simples torna-se assustadora: a banalidade do Mal.

Ora, o termo banalidade aqui recebe um significado fundamental para a compreensão da realidade a que Hannah se refere. Isto porque na origem francesa do termo está a banalidade (banalité) que era aquilo que se exigia como taxa para que os servos dos feudos pudessem usar os animais e ferramentas para as suas atividades diárias. E por isso adquiriu o sentido de comum, de trivial ou aquilo sem importância e sem significância.

Assim, a banalidade do mal é aquilo que se desenvolve entre os comuns que, por não terem consciência de si mesmo ou qualquer senso crítico em si mesmo, agem no Mal, por transferência de consciência de outro, como sendo algo corriqueiro. A Banalidade do Mal implica seres humanos não sendo, portanto, mais donos de si mesmos, que executam ações sem saber o quanto elas ferem a si mesmo como seres humanos e principalmente ao outro.

Neste sentido, o Mal é compreendido como algo tão corriqueiro e sensato que eliminar uma vida humana se assemelha a matar uma barata que contamina os ambientes por onde circula (e neste sentido dou graças a Deus por haver pessoas que não conseguem nem matar uma barata).

Ao nazismo, a morte humana foi um ato banal. Lamento informar aos que desconhecem a história, que o corriqueiro e sensato aos nazistas foi, com efeito, eliminar milhões de seres humano por motivos étnicos, num nível de maldada poucas vezes vistas na história da humanidade. Não que haja qualquer motivo justificável para se eliminar o um ser humano. No entanto, considera-se que o motivo nazista pode ser um dos motivos mais torpe e desumano da consciência humana.

Por isso, o episódio do Secretário em questão tornou-se repugnante. Primeiro, porque o contexto do discurso foi cultural, ou seja, aquilo que dá identidade e propícia a concepção do que os seres humanos pensam acerca das suas representações e simbologias, neste caso nós brasileiros. E este senhor estava habilitado a conduzir tal pasta. Segundo, pois, o discurso foi um plágio descarado do pensamento de um ser nazista.

Motivos óbvios para a sua demissão do cargo.

Mas o problema não para ai. A resposta do Secretário sobre as causas do seu discurso foi ainda mais assustadora, disse ele ao justificar o texto: “foi mera coincidência”.

Esta justificativa se torna problemática para nós por dois motivos: primeiro, vamos tomar como se o Secretário estivesse mentindo sobre a coincidência do texto e que, de fato, houve a intenção; segundo, vamos tomar a justificativa como verdadeira.

Por um lado, se não foi coincidência e ele está mentindo, este senhor deve ser processado, e deve responder na justiça a sua apologia ao pensamento nazista. Principalmente, por crer que tal pensamento possa servir para algum contexto de desenvolvimento humano e social brasileiro. Do mesmo modo, devem ser responsabilizados todos os que, provadamente, participaram da elaboração direta desse discurso. Mas aqui vem o problema, se foi intencional foi com ordem de quem? As diretrizes do seu discurso são diretrizes dadas, fazem parte de um projeto, projeto de quem?E se foi intencional somente pela parte do Secretário apologista nazista quem aprovou? E se aprovou concorda com as ideias oriundas do nazismo? E por que um simpatizante descarado do nazismo estava encarregado da pasta da Cultura, exatamente um dos instrumentos intelectuais mais poderosos utilizados pelos pensadores nazistas durante a década de 30? Ponto!

Por outro lado, se foi “coincidente”, assim entre aspas, realmente, o vídeo e o discurso tornam-se muito mais assustador. E aqui está o nosso ponto de reflexão, que parte da seguinte questão: se foi coincidência, qual é origem desse discurso? Pois, se há ideias nazistas contidas no discurso, elas são oriundas de onde? De um conjunto de outras ideias estruturalmente pensadas a partir da estrutura de poder da qual o Secretário é representante? Por que Roberto Alvim, um ser normal (espera-se) como tantos outros brasileiros, tal qual Arendt identificou Eichmann, acabou propagando ideias nazistas em um contexto brasileiro por mero acaso? Não estaria banalizando o mal a ponto de achar que estas ideias são normais?

Ainda, se foi coincidência: por que os agentes do governo tomaram o discurso nazista do Secretário com um sentido de discurso corriqueiro e banal a ponto de não filtrar a semelhança entre ele e o original nazista? Será que eles acharam que tal discurso era normal para o nosso momento político e social? Tão normal e tão banal a ponto de divulgar isto ao público, não o contestando como fez a sociedade civil? Estas e outras perguntas no remetem à questões muito mais semelhantes ao contexto de Eichmann. Será que Roberto Alvim não tinha consciência do que estava fazendo? Será que há um conjunto de ideias que partiu das estruturas governamentais que fez o Secretário pensar semelhantemente ao contexto do criminoso nazista?

Mas as questões não se encerram por aqui. Será que as ideias nazistas tomaram conta das nossas instituições a ponto de projetarmos os objetivos da nossa cultura semelhantemente ao pensamento nazista sem nos darmos conta disso, achando que essas ideias são banais e insignificantes para o nosso contexto político atual? E será que ao tomar o discurso do Secretário como uma idiotice não será ter em conta de que há uma Banalidade do Mal, como ocorreu com Eichmann? Ou ainda, será que os princípios que fundamentam a nossa consciência estão se acostumando com o Mal, a ponto de projetarmos que ser uma nação de brasileiro é ter ideários semelhantes aos nazistas?

A Banalidade do Mal, no contexto da pesquisa de Arendt, nos mostra a profunda relação entre o pensar para agir e o agir submetido a uma ideologia que nos bloqueiam a constituição da realidade. Eichmann, na concepção de Arendt, sabia que estava fazendo, mas fora impedido de pensar por si mesmo as atrocidades dos seus crimes. Embora, eu tenha, como convicção, algumas discordâncias de Arendt sobre esta questão, o fato é que a ideia má, se não tratada na raiz da sua concepção, pode impedir que se produzam valores de juízos melhores que ela em nós mesmos. O período medieval e as questões da inquisição nos permitem refletir sobre isso.

Porém, o que fica como reflexão para a questão do Secretário apologista do nazismo é que, no nosso contexto político e social do momento, não sejamos idiotas em tentar justificar qualquer aproximação do nosso ser humano com o “ser nazista” que no apologista nazista promoveu aquele discurso e o vídeo em questão. Pois, de fato, nesta aproximação, não há nada a ser revelado, senão compactuar com um tipo de crime, cuja maldade não pode ser banalizada nem classificada como um tipo qualquer de pensamento ou de idiotice. Pois, este tipo de pensamento e de maldade, caraterístico dessa corrente de pensamentos humanos, deve ser extirpados da mente de toda humanidade.

Pense nisso!