Aristóteles

Aristóteles nasceu em Estagira na Macedônia em 384 a.C., filho de um nobre médico da corte do Rei Filipi, pai de Alexandre, o Grande. Quando contemplou a idade adulta foi enviado à Grécia para completar seus estudos. Na Academia, fundada por Platão em 387 a.C., Aristóteles iniciou seus estudos, sobre astronomia, matemática e política, tornando-se um dos mais promissores alunos da Academia. 

Com um grande interesse por biologia, devido a influência de seu pai, e um forte espírito para a classificação da natureza, Aristóteles realizou um dos trabalhos mais notáveis sobre as ciências biológicas. Ao final de seus estudos em Atenas, Aristóteles retorna à Macedônia, a convite da corte para encarregar-se da educação de Alexandre, o Grande. De volta, após dez anos, funda o Liceu, que rivalizava com a Academia, no ensino dos jovens cidadãos da Grécia. Ali, ministrava aulas, muitas delas preparadas por ele ou anotadas por seus alunos, e são esses escritos que nos chegam até hoje, alguns em obras completas, outros, apenas fragmentos preservados no tempo.

Entre as muitas obras aristotélicas, destacam-se aqui as mais importantes de Aristóteles: a Física, que trata da natureza física das coisas, na qual a idéia é inteiramente envolvida pela matéria; a Metafísica, que trata da filosofia primeira, isto é, das primeiras causas de toda realidade, o ser no sentido mais amplo ou mais radical; a De anima, que expõe a teoria do conhecimento aristotélica; Organum, um conjunto de tratados lógicos que inclui as Categorias, Sobre a interpretação, Analíticos Primeiros e Segundos, e Tópicos. No campo da ética e da política, Aristóteles escreveu ainda: Político, Ética a Nicômaco e Ética a Eudemo.

Após o ano de 323 a.C., com a morte de Alexandre, o Grande, Aristóteles deixa Atenas por problemas apolíticos e refulgia-se em Cálcis na Eubéia, onde morre no ano 322 a.C..

Aristóteles desenvolveu seus estudos filosóficos a partir das filosofias pré-socrática e platônica. Ele buscou superar as questões ainda sem repostas ou aquelas mal elaboradas, tentando compreender as falhas e as limitações dos argumentos em ambas as filosofias. O ponto central da crítica aristotélica à filosofia platônica recai sobre a teoria do conhecimento de Platão, em que Aristóteles irá se opor ao dualismo da teoria das idéias, principalmente nas dificuldades de se explicar a existência de dois mundos (o dos sentidos e o das idéias) e a relação necessária que se estabelece entre eles, ou seja, a relação entre os sentidos e a razão.

  • Filosofia, conhecer para saber, saber para conhecer

Na abertura da sua obra Metafísica encontra-se uma das mais famosas afirmações de Aristóteles: “Todos os homens têm por natureza o desejo de conhecer”. Mais adiante, neste mesmo livro da Metafísica, lê-se outra das suas afirmações célebres: “Que a filosofia não é uma ciência prática, mas teórica, mostra-se pela história dos mais antigos filósofos. Com efeito, outrora, como hoje, foi, e é, pelo espanto que os homens chegaram, e chegam, ao filosofar (…) Aperceber-se de uma dificuldade e espantar-se é reconhecer sua própria ignorância e, por isso, amar os mitos, pois o mito está repleto do espantoso. Foi para escapar à ignorância que os primeiros filósofos entregavam-se á filosofia, buscavam a ciência para conhecer e não para usá-la.”

Para Aristóteles, a filosofia é o espanto feito de admiração. Admirar é mirar, olhar para contemplar. Contemplação, em grego theoría, do verbo theoréo, significa observar, examinar, contemplar e cujo correspondente, em latim, é o verbo specio, que dá origem à palavra especulação.

A filosofia, portanto, é contemplação. Conhecimento ou saber por especulação racional. O espanto admirativo desperta o desejo no homem de conhecer e é para ele causa de prazer. Assim, segundo Aristóteles, a filosofia é o desejo de conhecer e o prazer no conhecimento.

“Conhecer para saber, saber para conhecer” faz da filosofia um fim em si mesmo, pois não precisa de outras ciências para existir. Ao homem que filosofia, a filosofia é a busca constante de liberdade. E ser livre, diz Aristóteles, é ter o poder dar a si mesmo seu próprio fim e ser para si mesmo seu próprio fim. Por isso, a filosofia é o único de todos os saberes humanos que é verdadeiramente livre, pois “somente ela é seu próprio fim”.

Para entender a teoria do conhecimento se vê necessário, primeiramente, retomas os conceitos formais argumentativos propostos por Aristóteles: a lógica. A lógica aristotélica surge como um instrumental formal e racional para a construção de enunciados. Trata-se de um saber instrumental de importância metodológica para o conhecimento.

  • A lógica aristotélica

A teoria do silogismo tem a pretensão de ser uma teoria das formas lógicas possíveis de enunciado. Ela se apresenta como um instrumento de relevância metodológica à constituição do conhecimento. Isto significa dizer que é a partir de uma linguagem técnica, pela qual os argumentos são estruturados e elaborados, formando uma cadeia de raciocínios, que se desenvolve o discurso do conhecimento. Desse modo, se Todo B é A, se Todo C é B, logo, Todo C é A.

Aristóteles propõe um sistema formal de enunciados dedutivos, do qual se pode abordar criticamente uma teoria em dois pontos de vistas: interno, se as leis de deduções são ou não são corretas para a linguagem lógica; e externo, se a linguagem auxiliar permite, sem prejuízo lógico, aplicar-se a todo enunciado gramatical elementar.

Nessa estrutura formal, encontra-se um conjunto de formal de enunciados que visa contribuir para um saber seguro. Assim, a primeira proposição é a maior (B é A), a segunda, a menor (C é B); e a última a conclusão (C é A).

A lógica, portanto, consiste em um instrumento de reflexão sobre um determinado objeto, não importando, no primeiro momento, se esta reflexão seja uma representação fiel da realidade. Cabe ao filósofo apenas analisar se a estratégica lógica daquilo que se propõe estudar é coerente no sentido da sua seqüência de enunciados ou proposições.

Tipo Proposição

A (universal afirmativa) Todo S é P

B (universal negativa) Nenhum S é P

C (particular afirmativa) Algum S é P

D (particular negativa) Algum S não é P

Quadro (1)

Dado os enunciados:

Todo homem é mortal (primeira premissa); Sócrates é homem (segunda premissa). A distinção dos enunciados dedutivos dos enunciados não dedutivos deve obedecer a uma estrutura lógica do discurso, ou seja, uma premissa deve ser apresentada para que se aceite outra premissa e do entrelaçamento destes dois enunciados se possa aceitar um terceiro, a conclusão, que é a condição de verdade do discurso enunciativo: Sócrates é mortal (conclusão)

A lógica é uma argumentação excluída dos componentes materiais, porém, depende dos seus componentes formais. Isso significa dizer que a relação que existe entre as premissas e a conclusão de dedutividade é uma relação formal, pois depende exclusivamente da forma como é apresentado o discurso enunciativo. Aqui, o que importa é a coerência lógica da argumentação. O que caracteriza o silogismo científico, portanto, é a natureza de suas premissas, pois a conclusão decorre necessariamente de suas premissas.

É uma regra do silogismo que o termo médio da premissa maior (Homem) apareça na premissa menor e o termo extremo da premissa menor (Sócrates) apareça na conclusão, assim como, o termo extremo maior (Mortal). Exemplo: Sujeito é Predicado.

PM Todo homem (termo médio) é mortal (termo extremo maior)

Pm Sócrates (termo extremo menor) é homem (termo médio)

C Sócrates (termo extremo menor) é mortal (termo extremo maior)

Quadro (2) Premissa maior = PM / Premissa menor = Pm / Conclusão = C

Isto, contudo, não garante a sua condição de verdade, pois mesmo que ainda falso, um enunciado pode ser coerente. Portanto, atribuir uma verdade a um enunciado tem como pressuposto outro enunciado, no exemplo: “todo homem é mortal” tem-se como pressuposto que este enunciado seja verdadeiro. No entanto, ainda que não se saiba se um determinado enunciado seja verdadeiro ou falso, pode-se estabelecer uma seqüência (mecanismo) que mostre a falsidade ou verdade do enunciado, pois de duas premissas dadas como verdadeira, não se pode, por hipótese, obter-se uma conclusão falsa. 

Se por um lado, uma boa argumentação lógica é aquela em que o discurso enunciativo tem como base uma estrutura de premissas verdadeiras; por outro, somente o modo como as coisas se apresentam na realidade. Ou seja, como as coisas se comportam no mundo é que exclui a possibilidade de que se tendo duas premissas verdadeiras a conclusão não seja obrigatoriamente verdadeira.

Assim, um enunciado carrega uma pretensão da representação do mundo em todos os seus aspectos e se caracteriza como uma possibilidade de verdade ou falsidade daquilo que se quer representar. Logo, a verdade ou a falsidade de um enunciado depende da condição de verdade da realidade que o enunciado se propõe representar.

Se em certos casos a correção de uma argumentação depende das coisas no mundo, outras não. O que torna possível que um discurso enunciativo seja verdadeiro é o princípio de contradição. Exemplo: Pedro é aluno de filosofia (P1); Pedro é solteiro (P2); logo, algum aluno de filosofia é solteiro ou nem todo aluno de filosofia é casado (C). 

A aplicação de solteiro de acordo com o princípio de contradição impede que Pedro seja casado e impede também que todos os alunos de filosofia sejam casados, pois por definição quem é solteiro não pode ser casado.

Concluí-se então que certas palavras que aparecem nos enunciados têm como função fazer referência do e no mundo: coisas, seres, humanos etc. Outras, no entanto, têm o papel de mostrar como se definem as coisas do mundo e a condição de verdade diante dessas supostas definições. No interior de um discurso enunciativo, portanto, pode-se definir dois tipos de componentes: uns definem as coisas do mundo – componentes materiais; outros definem a condição de verdade a partir de outros elementos – componentes formais.

  • A teoria do Conhecimento

Segundo Aristóteles, dentro de uma estrutura hierárquica, os seres vivos são formados diversas categorias de almas. Encontram-se as almas que se manifestam nos seres vivos:

  1. a reprodutiva, presente em todos seres vivos;
  2. a sensitiva, presente nos animais;
  3. a locomotiva-sensitiva, existente nos animais dotados de sensação e memória;
  4. e a alma racional, exclusiva no homem, cuja função é o conhecimento intelectual e subdivide-se em duas: intelecto passivo, quando o conhecimento depende dos objetos oferecidos pela sensação, pela memória, pela imaginação e pelo apetite; intelecto ativo, quando o conhecimento depende exclusivamente da atividade do próprio pensamento.

Nessa estrutura, as almas são postas segundo a capacidade de realizar certas operações, cada grau superior da hierarquia pressupondo os graus inferiores, de sorte que em cada um esteja incluso os anteriores e será incluído pelos posteriores.

Aristóteles admite ainda, ao contrário dos platônicos, haver um saber sensível que possui duas características principais: a primeira, uma sensação é sempre verdadeira, pois o órgão do sentido reage sempre de modo certo e necessário ao sensível; a segunda, a sensação é um conhecimento, ou seja, a apreensão do sensível na mente.

  • A substância e as questões do Ser

Em seu livro Metafísica, Aristóteles aborda a questão da existência do ser como coisa constituinte na realidade e na razão. Ao contrário de Platão, que vê no dualismo entre o mundo real e o mundo abstrato, para Aristóteles o mundo tal qual como se apresenta não pode ser separado de dois elementos fundamentais, a saber: a matéria e a forma. O primeiro é aquilo que existe como Ente porque é constituído em si mesmo de matéria. Por exemplo, um jarro. Um jarro pode ser constituído de várias matérias: vidro, barro, porcelana, bronze etc. Contudo, toda matéria necessita de forma, pois o que diz o que a coisa é, é a sua forma. O jarro de bronze só é jarro não por causa da sua matéria, mas por causa da sua forma. A matéria diz apenas do que é feito o jarro e o que é o jarro.

Para Aristóteles, a substância primeira é aquilo que carrega o princípio do qual se diz o que a coisa é (ousia), a sua essência, e sem a qual os outros modos de dizer o Ente não podem ser afirmados. Desse modo, a forma, que separada pela abstração humana, é quem dará sentido ao Ser jarro, isto é, dirá o que o jarro é. Aqui, na forma do jarro é que se encontra a essência desse objeto. Todavia, não se pode determinar a realidade, segundo Aristóteles, sem que haja a percepção desses dois elementos: matéria e forma.

Assim, a forma das coisas surge como que uma “marca do mundo”. Aristóteles reconhece nela como algo que comanda os entes. Neste sentido, pode-se, então, dizer que a “essência das coisas sensíveis” é aquilo que é dotado de forma e matéria. Sendo a forma a essência primeira e separada pela razão, sendo o movimento do ente determinado também pela sua forma ou como ele mesmo afirma: “a natureza dos que possuem em si mesmos princípios de movimento é a forma”.

  • O conhecimento aristotélico

Aristóteles percebe, diferentemente de Platão, que a realidade se apresenta não apenas pelas idéias que ela apresenta à razão, mas como são também as coisas postas na realidade. Se há uma substância primeira que diz como as coisas são, há, porém, uma substância segunda, a matéria, que dirá do que as coisas são.

A partir da percepção de um mundo material que orienta a razão na compreensão da realidade, Aristóteles percebe que os Entes são também compostos por uma individualidade. Assim, são universais à medida que são compostos de forma; particular à medida que se constituem também de matéria. Isso significa dizer que o que faz com que aquele jarro seja diferente deste jarro são os acidentes ou atributos particulares que cada um traz em si. Os acidentes se referem, portanto, às características mutáveis e variáveis das coisas, sujeitas às mudanças e as contingências da sua realidade. Todavia, mesmo ao se diferenciar nas mutações e variáveis uma coisa não deixa de ser o que é. Por exemplo, um homem calvo difere por acidente de um homem cabeludo, contudo, nenhum nem outro deixam de ser homem na sua essência. Ambos trazem características que se referem apenas à sua individualidade, aquilo que é contingente, mutável e variável; porém, na sua essência, permanecem o que são, aquilo que é necessário, Isto é, ambos são homens (a forma de ser humano).

  • Ato e Potência

No início do conhecimento, somos como uma porção de barro ao qual não foi dada forma alguma ou uma folha em branco no qual nada foi escrito (somos uma “tábua rasa”). Conhecer é apenas a potencialidade de nossa alma – somos seres sensíveis em potência e seres intelectuais em potência. As coisas sensível-mentais atualizam nosso intelecto e passamos ao ato de intelecção. Assim, apoiando-se na experiência, nossa razão realiza nossa natureza, pois, somos seres que, por natureza, aspiram o conhecimento.

Segundo Aristóteles, um ser só passa da potência ao ato pela ação de outro ser em ato. Isto significa dizer que as coisas são ao mesmo tempo ato, por terem em si causas que a determinaram ser assim e potência, por terem em si uma determinação que a fará vir-a-ser alguma outra coisa. Uma semente é em si ato, pois neste instante ela está atualizada para ser semente, no entanto, há nela mesma, também, todas as potências que a determinará ser árvore. A diferença entre o real e o possível se apresenta em saber como uma coisa se apresenta como ato neste instante, o real, e como ela poderá ser possível, a partir das suas potências e do conjunto de contingências que a farão ser outra coisa.

No conhecimento, a sensibilidade (sensação, memória e imaginação) atualiza a potencialidade da razão, isto é, faz a razão pensar; mas também a razão atualiza a sensibilidade, pois é ela que descobre os inteligíveis no sensível, de modo que, para começar a pensar, a razão precisa do ato da sensibilidade, mas a sensibilidade, para continuar atual precisa do ato da razão, havendo uma reciprocidade entre elas.

Segundo Aristóteles, existem 4 causas para que uma coisa ou um fenômeno seja o que ele é, são elas:

Causa Formal: é aquilo que dá forma ou modelo à coisa, esta causa responde a questão o que é?

Causa Material: é aquilo que diz do que a coisa é feita, traz como referência a material da coisa ou objeto e responde a questão do que é feito?

Causa Eficiente: é aquilo que transforma a coisa no que ela é em si mesma e responde a questão por que a coisa é isto e não aquilo ou quem fez que isto fosse isto e não aquilo?

Causa Final: é o objetivo do objeto, a finalidade da coisa e responde a questão para que a coisa serve?

Assim, um martelo de ferro possui as 4 causas para ser um martelo:

  1. Causa Formal: qual a forma do martelo?
  2. Causa Material: do que é feito o martelo?
  3. Causa Eficiente: quem fez que o martelo fosse martelo?
  4. Causa Final: para que serve o martelo?

Um ato só atualiza outro de duas maneiras: ou porque é a causa material, formal e eficiente desse segundo ato (são de mesma natureza) ou porque é a causa final desse outro ato. Essa exigência de que a causa e o efeito sejam de mesma natureza ou semelhantes faz com que, no plano do conhecimento, a sensação seja um ato corporal de relação entre corpos que se relacionam por suas formas de mesma natureza ou semelhantes (por isso, cada órgão do sentido tem o seu sensível próprio). Assim sendo, no caso do intelecto ou da razão, a relação só se estabelece entre um inteligível e outro inteligível, isto é, entre uma idéia e um intelecto como ato de idealização.

A razão ou intelecto passivo precisa da sensibilidade para atualizar-se; o que há de comum ou de semelhante entre a sensibilidade e a razão ou intelecto passivo é a forma do sensível que a razão ou o intelecto capta como contendo potencialmente uma forma inteligível e a atualiza.

  • O conhecimento

Percebe-se, então, que a razão, opera princípios, definições e demonstrações, para formular juízos sobre as coisas, e tomá-las como unidade, por meio dos gêneros e das espécies, pelos quais se volta para a coisa singular, mas desta vez podendo abstrair o conceito verdadeiro. Sensações, imagens, palavras, conceitos, juízos, proposições e silogismos (deduções) são processos pelos quais o conhecimento tem de ultrapassar para que se alcancem os conceitos da realidade.

Segundo Aristóteles, na sensação e na intuição não formulamos juízos, mas temos o contato direto com a própria coisa (na sensação, temos o contato direto com suas qualidades sensíveis; na intelecção ou intuição intelectual, temos o contato direto com suas qualidades inteligíveis). O conhecimento é um processo de abstração (separação) e de generalização pelo qual as qualidades inteligíveis são apreendidas numa unidade verdadeira.

O conhecimento cresce em qualidade, quantidade e complexidade à medida que avança dos objetos muito simples aos muito complexos, abstraindo os acidentes para recolher as essências, generalizando os casos individuais para obter um universal ou um fundamento específico.

  • Aristóteles – Trechos do Livro Metafísica – Cap. II

A – Opiniões do senso comum, o que é filosofia?

• O filósofo conhece todas as ciências, na medida do possível, mas não conhece cada coisa em si; 

“Nós admitimos, antes de mais nada, que o filósofo conhece, na medida do possível, todas as coisas, embora não possua a ciência de cada uma delas por si.”

• É aquele que conhece além dos conhecimentos dos sentidos;

“(…) quem consiga conhecer as coisas difíceis e que o homem não pode facilmente atingir, esse também consideramos filósofo (…)”

• É aquele capaz de ensinar e conhecedor das causas;

“(…) quem conhece as causas com mais exatidão, e é mais capaz de as ensinar, é considerado em qualquer espécie de ciência como mais filósofo.”

• A filosofia é objeto dela própria, por isso é superior a outras ciências, se consideramos que ela abrange todo o “saber” e não o “resultado”;

“E, das ciências, a que escolhemos por ela própria, e tendo em vista o saber, é mais filosofia do que a que escolhemos em virtudes do resultado e uma “ciência” mais elevada é mais filosofia do que uma subordinada, pois não convém que o filósofo receba leis [científicas], mas que as dê, e que não obedeça ele a outro, mas a ele quem é menos sábio.”

B – Análise da filosofia diante do senso comum:

• O filósofo que conhece o universal, conhece o particular;

“(…) naquele que, em maior grau, possui a ciência universal, porque ele conhece, de certa maneira, todos os indivíduos”.

• A filosofia está distante dos sentidos;

“(…) de sobremaneira difícil ao homem chegar a estes conhecimentos universais, por que estão muito para além das sensações.”

• Ela, a filosofia, ocupa-se dos primeiros princípios e a que, entre as ciências, de menos elementos precisa; e por isso se torna uma busca ao conhecimento como as ciências mais exatas;

“(…) entre as ciências são as mais exatas as que se ocupam predominantemente dos ‘primeiros’ princípios; e as que de menos elementos precisam são mais exatas do que as que são chamadas ‘por adição’, como a aritmética relativamente à geometria.”

• A filosofia é um estudo que investiga as causas, portanto, é, por ter este conhecimento, capaz de ensinar;

“(…) a que ensina é a ciência que investiga as causas, porque só os que dizem as causas de cada coisa é que ensinam.”

• É a mais digna em liderar entre as ciências, pois, conhecer as causa se conhece todo o resto;

“(…) quem procura o conhecer pelo conhecer, escolherá, de preferência, a ciência que é mais ciência, e esta é a a do sumamente conhecível…”

• A filosofia é aquele que conhece a causa e o fim de cada coisa; e é a partir de princípios e causas que se conhecem todas as coisas;

“(…) e sumamente conhecíveis são os princípios e causas: é, pois a partir deles, que conhecemos as outras coisas, e não por meio destas, que são subordinadas.”

• A primazia da filosofia está em ser uma ciência dos princípios; em conhecer a constituição da natureza das coisas e porque tem um fim em si mesmo;

“A mais elevada das ciências, e superior a qualquer subordina, é, portanto, aquela que conhece aquilo em vista do qual cada coisa se deve fazer. E isto é o bem em cada coisa e, de maneira geral, o ótimo no conjunto da natureza. Resulta portanto de todas estas considerações que é esta mesma ciência que se aplica o nome que procuramos.” 

C – A filosofia como um estudo teórico:

• A filosofia é impelida pelo espanto e progride pouco a pouco;

“Foi, com efeito, pela admiração que os homens, assim hoje como no começo, foram levados a filosofar, sendo primeiramente abalados pelas dificuldades mais óbvias. E progredindo em seguida pouco a pouco até resolverem problemas maiores…”

• O Filósofo quer conhecer independente da utilização ou não da sabedoria;

“(…) claro está quem procuram a ciência pelo desejo de conhecer, e não em vista de qualquer utilidade.”

• Quando as necessidades da vida e bem-estar foram satisfeitas é que se começou a filosofar, pois ela não visa a um resultado prático, mas uma liberdade que lhe é eminentemente própria, pois ela existe por si só;

“Quando já existia quase tudo que é indispensável ao bem-estar e à comodidade, então é que se começou a procurar uma disciplina deste gênero. E pois evidente que não a procuramos por qualquer outro interesse mas, (…)também esta ciência é, de todas, a única que é livre, pois só existe [por si].”

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