Elogio à sensibilidade

Um dos pontos altos da discussão da Filosofia repousa sobre as questões que envolvem a Arte como uma capacidade humana de produzir significados e representações a si mesmo e como forma de dar sentido a realidade.

Desde Antiguidade, a Arte ronda as questões filosóficas acerca do seu papel diante do desenvolvimento humano em expressar nela os seus aspectos racionais e vitais ao próprio ser humano. Platão, por exemplo, não lhe designou um papel importante ao ser humano. A seu ver, a arte traria, em si mesma, certa ilusão, ou melhor, certa capacidade de produzir simulacros à razão humana e, consequentemente, à capacidade do ser humano de identificar as coisas na realidade como verdadeiras. Para Platão, o Belo, como expressão máxima da essência das coisas, estaria na ideia que o ser humano compõe o mundo ao seu redor, em que somente na razão se encontrariam as verdadeiras essências contidas no mundo. A realidade em si mesma, na concepção platônica, nada mais seria que uma cópia dessas ideias, ou seja, das essências verdadeiras do mundo. É neste sentido que Platão toma o papel do artista e, numa dura crítica a Homero, impõe-lhe o rótulo de enganador da realidade, em que o artista faria parecer real aquilo que não é, projetando na razão humana simulacros de uma realidade que se apresenta não como ela é, mas como ao artista lhe parece ser, afastando, assim, a capacidade dos observadores em compreender aquilo que são as verdadeiras essências das coisas.

Na mesma esteira de Platão, Santo Agostinho retoma a questão da Arte e lhe designa apenas um papel catequético. A seu ver, a Arte, por despertar a sensibilidade, promove o domínio dos desejos, pois, desperta em nós o prazer, a emoção natural e instintiva que nos faz afastar a razão das questões morais e piedosas da fé e, portanto, afasta-nos de Deus. Mesmo aquelas Artes, como as músicas sacras que se elevam como louvor a Deus, Agostinho entende que os reais motivos da contemplação a Deus não estão contidos Nele mesmo, mas no prazer que os acordes de louvores imprimem na nossa sensibilidade, prazer este que nos motiva a pensar em Deus não por Ele mesmo. Com efeito, Agostinho entende que o louvor que se presta a Deus por meio da Arte é, pois, motivado pelo prazer que ela nos provoca e, deste modo, não se louva a Deus pela razão, mas pelos prazeres que os sentidos nos provocam.

Todavia, a Arte recebeu um novo alento na modernidade. Aqui os artistas renascentistas retomam as questões mais humanistas sobre ela. São eles que redirecionaram a Arte como uma questão filosófica da própria humanidade. Ela, com efeito, alcança, na Filosofia, o auge da reflexão sobre a capacidade do ser humano representar a si mesmo e a realidade. A Arte receberia, neste ver, a tarefa de conduzir o ser humano à reflexão de si mesmo, sendo designado o papel de fornecer subsídios, ao ser humano, capazes de torná-lo aquilo que ele é: um ser dotado de sensibilidade e racionalidade. Trazendo-lhe, dessa forma, as essências de Ser em si mesmo o que ele é.

No entanto, aqui há uma exaltação da razão diante da Arte, em que, por mais que possa parecer sensibilidade, o domínio da razão, como fruto de uma reflexão, pensada, organizada e deliberada, se expressa como organizadora da Arte em si mesma, dando-lhe, como uma característica da modernidade, a confiança necessária para ser o que é, como expressão humana, somente por meio da razão humana. O que faz da Arte não apenas uma expressão da sensibilidade e da emoção humana, mas, antes, uma expressão racional de si mesmo. Disso decorre que a realidade humana na Arte se expressa pela razão, em que ela recebe e torna-se humanizada por meio dessa capacidade racional.

Nietzsche, no século 19, talvez seja o primeiro filósofo a compreender a Arte nos domínios realmente humano. Em sua obra Humano, Demasiado Humano, ele retomou a questão e imprime a Arte um significado que, a nosso ver, poucos filósofos se predispuseram a refletir. Primeiramente, porque afasta dela o caráter imutável da verdade e de uma subsistência eterna. Aqui a Arte refletirá o caráter mutável da própria essência humana. O ser humano mudou ao longo do tempo e junto a ele a Arte, que é a maior expressão de si mesmo. Isto significa dizer que para Nietzsche, a Arte não tem o mesmo caráter de importância que as outras atividades humanas, como a técnica, a ciência ou mesmo a própria capacidade humana de raciocinar. Isto porque a seu ver a Arte está no domínio da vontade humana, e como tal, é a expressão primeira da nossa humanidade. “O homem científico”, mencionaria Nietzsche, “é continuação do homem artístico”.

Segundo, porque Nietzsche dá a Arte um significado muito mais humano, pois, ao designá-la como expressão da nossa vontade, impõe a nós a reflexão de que tudo o que produzimos até agora não foi a partir de uma razão que busca a superação da própria natureza, mas a partir de uma vontade humana em querer expressar ao mundo o que é em si e por si mesmo como Ser no mundo. A Arte reassume o seu papel verdadeiro de dizer quem somos, pois, de fato, é ela quem designa a capacidade universal do ser humano de expressar, ao longo do tempo, quem foram, cada um de nós, no contexto da nossa própria existência e da nossa vida. Se hoje somos técnicos, científicos, tarefeiros, somos por causa de uma razão que imprime em nós, seja por meio da cultura, das leis, das motivações, os domínios da nossa vontade.

Todavia, antes de sermos razão, desde a nossa infância, somos vontades. E por assim ser, as vontades humanas são, instintivamente, a nossa maior expressão como seres no mundo. À medida que racionalizamos as nossas vontades, deixamos uma parte do nosso ser para trás, ou como diria Nietzsche “o homem doente do homem, doente de si mesmo”.

De fato, na racionalidade deixamos de ser sensibilidades e emoções, para nos entregarmos a uma razão designada incapaz de compreender o que somos. Nota-se, contudo, que a vontade a que se refere Nietzsche não é aquela que é em você individualmente, ou seja, única e sua. Nietzsche, com efeito, se refere a uma vontade potência humana de ser humano em si mesmo e por si mesmo em convívio com outros humanos. Disso decorre, que o particular não se sobrepõe ao universal, mas, ao contrário, em que o universal se sobrepõe ao particular. Neste sentido, a Arte não expressa o ser de Zé nem de Mané, mas o Ser existencial, que vive e morre, não pela sua própria capacidade de ser Zé ou Mané, mas pela sua própria capacidade de Ser Humano, de viver. Em outras palavras, a Arte entendida no pleno domínio de si mesmo diante do outro, não pela sua capacidade de ter uma razão moral nem científica que suprime a vontade, mas pela própria vontade de querer Ser Humano. Ser em vontade potência para a Vida. E aqui uma Vida não mais minúscula, mas maiúscula, que revela o Ser e suporta os enganos e as contradições da vida em si mesmo. Uma Vida que se apresenta na Arte, como a capacidade do ser humano de revelar em si mesmo a sua vontade potência. A Arte é, pois, neste sentido, o retorno à humanidade e, consequentemente, um retorno à Vida, que pode ser expressada na mais singela representação de um par de mãos espalmadas sobre uma rocha qualquer em um tempo qualquer.