O que é corrupção?

Se você fura fila. Se você dá caixinha para o servidor público para facilitar privilégios ao acesso a serviço público. Se você ocupa vagas ou lugares destinados a pessoas com problemas de locomoção ou estaciona seu carro em vagas que não se destinam a você. Você tem um problema grave de compreensão do que é cidadania, empatia e, principalmente, sobre o que é corrupção.

Todos estas ações envolvem necessariamente a consciência de termos políticos que regem a nossa ordem social. No entanto, para que esses termos façam sentido, um aspecto fundamental adquirido pelo seu Ser consciente, além de caráter é claro, é necessário: a Educação.

Todavia, mesmo “educado”, isto não significa que você terá o caráter suficiente para compreender o seu papel na sociedade. São inúmeros os exemplos de pessoas possuidoras de “educação”, assim mesmo entre aspas, que se revelam totalmente à parte dos seus princípios de cidadão. Por isso, costumo afirmar que cidadania torna-se um fruto maior da consciência de si mesmo do que dos princípios adquiridos ao longo de um processo educativo.

Quando falamos de cidadania, em geral, falamos de uma relação dialética necessária entre o cidadão e o Estado. De fato, um Estado não existe sem um cidadão, assim como, não há cidadania sem o reconhecimento pelo Estado do seu cidadão.

Por isso, ser cidadão e ter cidadania é uma via de duas mãos. E aqui que entra a questão inicial sobre as ações que fazemos em detrimento da cidadania. Ser cidadão é ter consciência de que o Estado, ao qual você pertence, organiza o modo de convivência, segundo regras necessárias à ordem e à disciplina convencional. Em que espaços de convívio público são determinados e seguem princípios de organização social. Ser cidadão é, portanto, compreender que o outro está submetido às mesmas vantagens e desvantagens de pertencer, como você, a uma sociedade política. Por isso, a empatia, coisa que muita gente não aprendeu na escola, torna-se princípio fundamental à compreensão do nosso ser político.

Empatia, como a definiu o filósofo alemão Kant, é, em um primeiro movimento, reconhecer-se como ser humano; em um segundo movimento, é colocar-se no lugar do outro. Empatia é, no sentido prático da ação política, saber que tudo que é necessário para que você tenha uma vida harmoniosa, existencial, profissional e pessoal, é também para o outro.

Por isso, ao furar uma fila, você acredita que o seu tempo é mais precioso que o do outro, mas não é. Ao ocupar um lugar destinado a outros com problema de locomoção, você acredita que os seus problemas são mais importantes que os dos outros, mas não é. Ao agir assim, você se mostra um ser menor e explicitamente corrupto. Exatamente na mesma medida daquela corrupção que, talvez, você cobre dos políticos que usam os seus cargos e privilégios para levar vantagens pessoais.

E aqui cabe esclarecer que o termo corrupção tem sua origem etimológica da junção do termo latino cor (coração) + rupta (quebra ou rompimento), cujo sentido literal seria a quebra do coração ou, em um sentido mais amplo: não ter coração. A corrupção, portanto, é a degeneração do sentimento humano de compaixão e de solidariedade diante do outro.

Enquanto a empatia é reconhecer-se no outro, a corrupção é a degeneração do seu próprio ser diante do outro, ou seja, é a desumanização de si mesmo. Isto porque se reconhecer como ser humano não ocorre diante de si mesmo, mas apenas diante do outro. Portanto, ao se ver como “humano”, o critério de valorização de si mesmo não é dado por você no reconhecimento de si mesmo, mas é dado pelo outro. Pois, é ao apontar para o outro que você vê nele o que você é. O que significa dizer que sozinho no mundo você não seria outra coisa senão um animal como outro qualquer.

Desse modo, toda vez que não nos reconhecemos no outro, deixamos de ser o que somos, como humanos, para sermos um animal qualquer. Toda vez que nos corrompemos diante dos outros, ou seja, na convivência com outros humanos, deixamos de ser o que somos, degenerando a nós mesmos.

Todavia, a corrupção não cessa apenas no nosso ser, aqui também entra em jogo o conceito de cidadania. Por sermos parte de um corpo social, do qual fazemos parte de um todo, o conceito de Estado aqui emerge como o princípio necessário para constituir o que nós somos enquanto coletividade social. Disso decorre que além da empatia e da cidadania, temos a responsabilidade de ser também o outro, pois, pelo mesmo princípio, no Estado não somos um, mas muitos.

Assim, toda vez que alguém corrompe a si mesmo diante do outro lhe causando prejuízo, corrompe a nós mesmos. Pior fica se este “alguém” corrompe o Estado, que nada mais é que a soma de todos nós a partir do nosso esforço coletivo.

Por isso, compactuar com a corrupção, seja de pessoas que furam a fila ou ocupam lugares indevidos; seja de empresários que sonegam valores públicos para vantagens de si mesmos ou ainda que exploram o outro para obter qualquer tipo vantagem; seja de políticos que usam do poder público para os mesmos fins; ou mesmo aquele seu vizinho tiozinho que faz um gato na rede de TV a cabo para obter vantagem pessoais sobre o que não lhe é direito; nos faz semelhantes a eles, pois, por certo, a nossa consciência de cidadão, aquela que permite saber o que é certo e errado na coletividade, reclama uma tomada de decisão. E esta decisão não pode ser outra, senão a de retomar aquilo que lhe é mais precioso: a sua própria humanidade. Por isso, o certo para si mesmo e para nós. é toda vez que você perceber um ato de corrupção seja ele o menor que for, delate-o. E principalmente se esta corrupção for executada por aqueles que a princípio deveriam proteger o que é nosso. Pense nisso!