Ser agora

Em geral, a chegada de um ano novo abre as possibilidades para a reflexão sobre o que somos agora. A cada passagem de ano um novo Ser é proposto por nós mesmos para que possamos realinhar as perspectivas problemáticas do Ser que deixamos no final do ano anterior e possamos projetar no futuro um Ser melhor que o anterior. Desse modo, promessas para mudanças são feitas, novos desafios são impostos, desalentos e desenganos são reavaliados ou abandonados.

Este período do ano é um momento importante para muito de nós, pois, trata-se de uma revisão do que somos como Ser no mundo.

E seria quase impossível, para um filósofo, refletir esta visita no Ser e não se valer das questões existencialista de Jean-Paul Sartre. A ele, portanto, recorro para que possamos refletir um pouco sobre este novo Ser que modula uma nova configuração para o ano que aponta no horizonte à frente da nossa existência.

O primeiro ponto a considerar é o que somos agora. Segundo Sartre, o que somos neste momento é passível de Ser qualquer coisa, pois, segundo ele, nós mesmo somos produto de construção constante de nós mesmos. Isto significa dizer que, por mais completo que acreditamos ser, nunca estamos, definitivamente, acabados. Somos sempre um ser em construção.

Todavia, esta construção implica considerar o que fomos; o que somos e o que seremos. Portanto, para definir o nosso Ser é necessário que se perceba uma relação intrínseca e necessária entre o nosso passado; presente e futuro.

De um lado, o passado se apresenta para nós como algo que é, pois, somos resultado desse passado. Isto é, embora estejamos no presente, este, por consequência, é fruto do passado, que de algum modo se encontra aqui. Porém, sem mais Ser o que é, pois, deixou de Ser. Mas eis aqui o problema do passado para nós. O passado para nós não é senão uma presença que assombra, de modo opaco, o nosso presente. O que significa dizer que não somos mais o nosso passado, embora ele pareça imaginativamente mais próximo de nós. Ele é, com efeito, algo que deixou necessariamente de Ser e não poder Ser agora. Ao passado resta apenas um Ser que foi para nós experiências. Em outras palavras, o passado não é outra coisa senão conhecimento.

De fato, o passado é, para nós, apenas conhecimento sobre experiências vividas, boas ou más, que se projetam no presente não como forma de Ser, mas como forma de operar o que somos agora e somente agora. Não podemos remodelar o nosso passado nem revivê-lo. Isso significa dizer que não podemos viver o passado, pois, o que emerge agora não é o que “fomos”, mas o que somos agora como resultado de Ser, mas não como Ser passado, pois, com efeito, isso significa dizer que somos um Ser agora ainda em construção que não pode ser outra coisa senão o que é agora.

Do outro lado, encontra-se o futuro, algo que ainda não é, mas que, ao projetá-lo agora, queremos que ele seja o que ainda não é. E eis novamente um problema: o futuro ainda está por vir e não há nada de Ser nele que possa Ser agora. De fato, o futuro é apenas um Ser possível, mas que para Ser o que é não depende de si mesmo como Ser, mas depende do Ser que somos agora. Portanto, não há Ser no futuro sem o Ser no presente. Isso significa dizer que não podemos viver o futuro, pois, este, de fato, não é senão uma projeção do agora.

Assim, vivemos este dilema existencial. Esta encruzilhada que nos encontramos em cada final de ano. Pois, na verdade, não somos mais o Ser que no ano passado deixamos de Ser, mas ainda não somos o ser que queremos ser no ano que chega.

A passagem de ano, ou seja, a virada do dia 31 de dezembro para o dia 1o de janeiro é exatamente um dos poucos momentos em que somos existencialistas na nossa trajetória de vida. É, neste momento, que tomamos certa consciência existencial de que somos um Ser em construção, profundamente, voltados em compreender o que somos hoje: refletido, considerando, modelando e projetando em nós mesmos as questões que envolvem o nosso Ser no mundo. Assumimos aqui neste momento a responsabilidade de buscarmos compreender quem somos e passarmos a nossa existência a limpo, nem que seja por um curto prazo de tempo, entre o ano anterior e o ano vindouro.

Mas realmente a pergunta que fica é: isso importa? A resposta é simples: sim.

Primeiro, por ser o momento em que nos importamos com o presente. E não digo isso porque estamos feliz ou esperançosos, junto aos nossos amigos ou familiares. Digo, pois, de fato, estamos preocupado com o que somos. Segundo, porque é que aqui está a chave do existencialismo de Sartre: saber quem somos agora. É este Ser agora que se constrói pedaço por pedaço, ensina-nos o filósofo francês. É este Ser que se projeta neste instante a partir de nós mesmos, longe do passado e longe do futuro, pois, é ele um Ser que se encontra longe do passado, que deixou de Ser, e distante do futuro, que ainda não é.

Daqui, pois, que, mesmo inconscientemente, o nosso Ser é chamado à reflexão e a considerar o que é a nossa existência em nós mesmos. É claro que várias questões se somam para compreender o que somos: nossa sociedade, nossa família, nossos valores; mas, com efeito, nenhum deles podem determinar o que somos, enquanto estamos em construção, pois, daqui brota não o que eles fizeram de nós nem o vazio e a angústia de sermos ainda o que não somos, mas a única coisa que sobra neste momento: sermos nós mesmos aqui e agora. Livres para pensarmos o que quisermos; lançados no mundo para sermos o que somos e responsáveis por sermos o que somos agora. Em outras palavras, pronto para sermos o que somos, para constituir em nós mesmo, e a partir de nós mesmos, o Ser que se projeta agora.

Uma virada de ano não é apenas a comemoração do futuro nem o lançar mão do passado, mas é a compreensão plena de que neste momento somos o que somos agora, com toda a existência dada no passado e com toda a existência dada agora, em que a trajetória do vir-a-ser nada mais é senão uma possibilidade de Ser, deste Ser que se configura agora.

Feliz Ser Novo!