Por que devemos ser éticos e não apenas morais?

Muitas vezes as questões que envolvem o nosso comportamento no dia a dia seguem problemas que confundem as questões sobre a moral e a ética. Em geral, as pessoas acham que ser ético e ser moral são coisas semelhantes e algumas vezes ousam pronunciar a frase: “ética cada um tem a sua”. Opa! Pera lá! Não é bem assim. Ao contrário, moral cada um tem a sua e ética não. Explico!

Na história da humanidade, percebemos que os valores morais foram constituídos a partir de vivenciais sociais e comportamentais que foram sendo estabelecidas pelas convenções sociais que um determinado grupo de humanos toma para si, cuja finalidade seria reger a ação coletiva diante desse mesmo grupo. Por exemplo, enquanto uma sociedade entende que o valor moral da monogamia é o princípio fundamental que rege a união familiar, a hereditariedade, a fidelidade matrimonial; outras sociedades entendem que poligamia é o princípio que fundamenta as mesmas questões familiares e hereditárias.

Por certo, a monogamia implica uma estranheza para aquele ser humano que tem nas regras morais a poligamia e pode causar desentendimentos de compreensão sobre como alguém pode estabelecer o matrimônio apenas com outro ser por toda a vida; e o mesmo vale ao monogâmico, que pode estranhar as relações de poligamia no matrimônio.

A moralidade, portanto, segue princípios de convivências e conveniências sociais de acordo com cada núcleo humano entende as ordens e organizações necessárias para o convívio social.

A ética, todavia, é uma reflexão sobre a própria ação, não apenas em relação à própria moral, mas em relação ao outro. Neste sentido, ela tem como objetivo a convivência humana, cuja finalidade está em promover o Bem de modo harmonioso para todos.

Toda vez que um ser humano pensa sobre a sua ação e considera nela o outro, ele parte para uma “reflexão” (uso da razão), em que o princípio da ação não está apenas nele mesmo, mas também no outro. E esta reflexão pode envolver um princípio moral ou não. A ética, portanto, envolve a reflexão necessária sobre o desejo de agir, o poder de agir e o dever de agir, na mesma medida em que “agir” na coletividade tem uma dimensão muito maior que a própria individualidade e está necessariamente conectado aos efeitos que esta ação pode causar ao outro.

Dito de outro modo, enquanto na moral, a regra é dada e você apenas a segue, segundo as convenções estabelecidas no contexto da sua sociedade; na ética a reflexão da ação, “se posso fazer ou se devo fazer uma ação”, segue outros princípios de análise que não se estabelecem apenas em você, mas tem como fundamento o outro. Isto significa dizer que na moral, por exemplo, nós aprendemos a regra e a seguimos sem pensar “sobre”, apenas a executamos. Como na ação de roubar, aprendemos com nossos pais que roubar não é permitido, pois, deixamos de ser honesto com a coletividade ao procuramos levar vantagem sobre algo que não é fruto do nosso esforço. Aprendemos com eles que não roubar é uma questão moral no nosso meio social, sendo que o seu contrário, ou seja, roubar, reflete o caráter da nossa imoralidade diante do nosso núcleo social. E, por isso, de acordo com a nossa moralidade, tal ação é passível de punição.

E vale a pena ressaltar: imoral é aquele que conhece a regra, mas não a segue, diferentemente, do amoral, que não conhece a regra.

Porém, imaginemos agora que vivemos em uma sociedade que o roubo seja permitido. Ainda assim deveríamos roubar? Sim ou não? Aqui é que entra a questão ética. Por exemplo, sabemos que tudo que um indivíduo constrói em sua vida, espera-se, seja a partir do próprio esforço para sobreviver. O trabalho, portanto, é uma ação necessária que faz parte da condição natural do ser humano. Ou seja, para sobreviver todo ser humano necessita praticar uma ação que promova bens para as suas necessidades existências, por isso, o trabalho é uma ação existencial humana. Todavia, se esta é a condição existencial humana, quem pode privar o ser humano de fazer uso daquilo que é do fruto do seu trabalho? Ninguém.

Por isso, quando alguém sente o desejo de ter algo de alguém, sabendo que este algo é fruto do trabalho do outro, entra nas questões éticas, pois, mesmo que uma regra moral permita que você roube o que ao outro pertence, o entendimento universal dessa ação se destina à compreensão universal do que é ser humano, que não se refere a uma questão moral, mas a uma condição universal humana. Você não deve roubar, pois, tirar fruto do trabalho do outro é desumano não somente com aquele que é prejudicado por tal ação, mas também porque você é prejudicado diretamente por esta ação. Pois, de fato, o mesmo princípio natural que rege a sua ação, a liberdade de roubar, rege a ação do outro e, por isso, você não teria garantia nenhuma de que não vai ser roubado, não tendo, consequentemente, garantias da sua existência. Desse modo, a implicação da ação abrange dois domínios necessários de reflexão e consciência: primeiro, se perceber como humano; segundo, perceber que aquilo que é um mal para você como ser humano, é também um mal para o outro.

E, por isso, a ação ética não pode se valer apenas dos princípios morais, pois, como dissemos, as morais são muitas e, por isso, deve se valer de princípios universais que se referem ao ser humano, cuja ação tem por finalidade não somente o outro, mas também a nós mesmos como seres necessariamente sociais. De fato, tudo que fazemos como ação que prejudica o outro ser humano como tal, tem como consequência a nós mesmos. Desse modo, por princípio, aquilo que se refere à humanidade do outro se refere à minha humanidade.

A ética, portanto, é mais que uma determinação social, é consciência e uma necessidade de que tal consciência deve ser também um ensinamento que deve ser transmitido a todo ser humano, para que cada um de nós possa compreender, na sua essência, quem somos como seres sociais no mundo.

Falar de morais implica falar das regras sociais aos quais se referem à uma sociedade específica e ao convívio e convenções que esta sociedade impôs, como em tantas outras sociedades, como regras comportamentais em cada uma delas, às ações da coletividade. Ao se falar de ética, há, todavia, um salto para questões racionais de escolha e uso da liberdade que envolvem a reflexão não apenas como membro de uma sociedade particularizada, mas também como membro de uma sociedade maior que todas elas: a sociedade humana. Agir de um modo que fere a humanidade é agir, contra a minha humanidade, ou seja, é agir contra todos os outros humanos. Por isso, na ética não basta saber apenas que eu sou, mas quem “nós” somos. Pois, todos estamos na mesma condição existencial e estamos submetidos aos mesmos males. Pense nisso!