Verdade, opinião, crença e fé

Desde o princípio da filosofia, os mais antigos filósofos tiveram meio que um fetiche pela “Verdade”. Sócrates e Platão foram os filósofos que mais colaboraram com a questão de que a filosofia, como forma de conhecimento, teria seu principal objetivo a busca da “Verdade”.

Para ambos filósofos, buscar a verdade era buscar as essências das coisas e do mundo. Encontrar a definição perfeita e exata das ideias que compõem a compreensão das coisas deveria ser a tarefa final do filósofo. A busca da “Essência das coisas” seria, portanto, o objetivo de toda atividade filosófica.

Neste sentido, a “Verdade” se apresenta como um ato de libertação supremo, como se fosse uma reconquista da alma (razão). A alma que encontra a “Verdade” se sentiria, neste sentido, livre das amarras da realidade ilusória, da opinião; alcançado o Bem maior e Supremo por meio da contemplação das “Ideias” das coisas.

E assim, como um fantasma, a “Verdade” habitou os filósofos da história que passaram a persegui-la, instante a instante, momento a momento; indo de um ponto a outro incansavelmente, cada vez mais longe, e sempre mais longe, sem, no entanto, alcançá-la de fato.

A vida do filósofo tornou-se uma angustia, pois à medida que certa “Verdade” fosse estabelecida, outra logo em seguida era possível e, incessantemente, o filósofo se viu um ser vazio de “Verdade” e recheado de incertezas.

É claro que esta busca deu ao filósofo um caráter independente diante do mundo e das questões que se pareciam finitas para o ser humano que as pensam de modo comum. Por certo, o aspecto dogmático do mundo foi, diante do filósofo, jogado de lado e considerado como um modo de ver o mundo estático, sem mudanças. Porém, isso não significou que não houve, na história da filosofia, filósofos dogmáticos, ao contrário, são muitos aqueles que acreditaram ter encontrado a “Verdade” e nela se agarraram com todas as suas forças cognitivas para fazê-la ser compreendida. O próprio Platão, em muitos momentos da sua filosofia, apresenta-se como um filósofo dogmático. Na mesma esteira, Agostinho de Hipona, Descartes, Kant e até mesmo Marx, aparecem no rol do dogmatismo da “Verdade”.

No entanto, esta mesma história que nos mostra a busca da “Verdade” pela filosofia e pelos filósofos, nos mostra também que a “Verdade”, esta que até agora representamos com “V” maiúsculo, não pode ser entendida como tal em seu sentido pleno. Isto porque, ao longo da própria história da filosofia, as verdades foram se desenvolvendo e desfilando aspectos, à medida que os esforços daqueles e de outros filósofos para encontrá-la foram empregados, que em si mesma não pode ser estabelecida como tal. Isto implica dizer que esta “Verdade” não pode ser tomada como tal.

De fato, aqui é necessário tentar categorizar a que tipo de “verdades” se referem as ideias do ser humano e se é possível, por princípio, ou seja, como ela foi idealizada pelos primeiros filósofos, alcançá-las.

Por definição, a verdade é aquilo que deve corresponder exatamente a um fato ou a uma realidade. Aqui não se pode dar margem à variáveis, pois, se houver alguma variável, há, portanto, uma possibilidade de um fato ou realidade não corresponder exatamente aquilo que se estabelece como tal. A filosofia e a ciência operam com um tipo de verdade que não permite considerar muitas variáveis, porém, não se deve tomá-las como “Verdades” plenas, ou seja, dogmáticas. Ao contrário, tanto para a filosofia quanto para a ciência, toda a verdade promulgada devem haver uma dose de ceticismo, o que chamo de “ceticismo saudável” ao nosso próprio modo de compreender a realidade. Todavia, toma-se cuidado aqui, pois, isto não significa que a devemos tomá-las como relativas.

O relativismo filosófico e científico se configura na possibilidade de busca de explicações que escapam a algumas objetividades dadas como “certezas” ou que possa corresponder à realidade mais plenamente, em que tais certezas não se tornam verdades plenas, mas recebem o significado de terem, em si mesmas, uma validade explicativa. Não obstante, um fato não se pode negar nem a uma nem a outra, ambas buscam estabelecer verdades que correspondam exatamente à realidade ou ao fato que se analisa.

Mas cuidado! O relativismo filosófico e científico não significa opinião, pois, esta é apenas um parecer ou uma interpretação subjetiva e, na maioria das vezes, inconclusiva, que segue em direção apenas a um modo de estabelecer alguns princípios de pensamento e ação na realidade. Uma opinião está mais para uma crença do que para uma verdade. Disso decorre que “verdades subjetivas” não são “Verdades” nem para a filosofia nem para a ciência. Estas são apenas crenças que elaboramos para nós, em nós mesmos, e lhes atribuímos um valor de verdade.

Por isso, se você estabelece alguma verdade, em que o ponto de referência desta verdade é você mesmo, lamento informar que você apenas está elaborando algo que somente você acredita e, consequentemente, não significa que isto que você crê seja verdade, mas um modo referencial no qual você opera os pensamentos e as suas ações. Portanto, não saia por ai dizendo que a “terra é plana”, pois, alguns de nós não estarão exatamente convencidos sobre esta “sua” verdade.

Mas há ainda um tipo de crença que não pode ser estabelecida como verdade. Esta é ainda muito mais subjetiva ao ser que a emite: é aquela que chamamos de fé. Há aqui uma diferença crucial entre crer e ter fé. Acreditar ou ter crenças em algo ou em alguma coisa é estabelecer princípios ou critérios de compreensão de realidade que permitem executar uma ação, na qual não é necessário ter domínio de qualquer verdade, ou seja, não é necessário haver uma correspondência exata do que se opera para dominar a relação pensamento, ação e realidade. De fato, a crença a que me refiro caminha muito mais por uma certeza prática do que por uma verdade definitiva sobre a coisa. É como fazer café. Você acredita que se esquentar a água em um recipiente submetido ao fogo e despejá-la sobre o pó de café e filtrar a mistura entre os dois você terá feito um café. E toda vez que você reunir o conjunto de pensamentos que envolve o fazer café e agir desta maneira isto dá certo. Embora você tenha uma certeza sobre o modo de fazer café, isto não significa que este modo seja verdade, como princípio universal, pois, deve haver no mundo outros modos diferentes do seu que dão o mesmo resultado e, talvez, até melhores que o seu, principalmente, se você está acostumado a fazer aquele café ralinho e fraco.

Este conjunto de ações e pensamentos que nos guiam para compreender e agir a na realidade, chamamos de crença. Por um lado, esta crença não é nem filosofia nem ciência, pois, embora corresponda a realidade, ela não estabelece um conhecimento que explique universalmente a realidade, isto é, que se aplica a todos os modos de fazer café; por outro, não é verdade nem fé, pois, esta tem algo a menos que a crença e muito menos que a verdade.

A fé, principalmente no sentido religioso, repousa em uma confiança absoluta em algo que não corresponde com a realidade ou com algum fato em si mesmo, que apenas faz sentido para que a pensa. Em outras palavras, a “Verdade” que aqui se estabelece só faz sentido para aquele que a emite. Há na fé um substrato de subjetividade que não pode ser determinado pela realidade aparente nem pela universalidade. A fé é a manifestação subjetiva de uma realidade que não se manifesta nela mesmo, mas somente em que a emite como “Verdade”. Por isso, acreditar em Deus não é uma questão de verdade, mas uma questão de fé. Acreditar em Deus e O estabelecer como verdade, somente faz sentido àquele que Nele tem fé (crê).

Pois bem, para encerramos, vamos retomar o que foi elencado aqui: primeiro, não existe uma “Verdade”, assim, com “v” maiúsculo, dogmática, nem para a filosofia nem para a ciência; segundo, o relativismo é apenas um modo de estabelecer um outro olhar sobre o objeto e ampliar as possibilidades de explicações, mas este olhar não pode ser confundido com a opinião, pois, nem de perto nem de longe uma opinião pode ser tomada como verdadeira; terceiro, as verdades subjetivas não fazem parte das interpretações universais da realidade, senão apenas para quem as pensa e segundo o seu modo de interpretar pensamentos e ações; quarto, a crença é um modo de interpretar a realidade que se acredita dar sentido à realidade, porém, é apenas um modo de pensar e agir na realidade que, de alguma maneira, dá certo, não podendo este modo ser considerado universal; e quinto, fé se refere a uma crença que só faz sentido para aquele que a pensa.

Com isso, podemos considerar que: fé, crença, opinião e verdade são graus de interpretações do mundo que partem de subjetividades humanas e caminham para a objetividade nas questões que envolvem a própria realidade. Filosofia e Ciência lidam com verdades que buscam explicar e validar uma realidade de modo universal, para isso, utilizam métodos, instrumentos e ferramentas de análises que lhes permitam ser o mais preciso e rigoroso possível, mas que não são plenas em si mesmas; enquanto opinião, crença e fé se referem a apenas modos de interpretar esta mesma realidade, todavia, longe de darem um sentido universal a isto, senão um parecer aparente de como ela se apresenta, apenas isso.

Portanto, esqueça aquela frase: cada um tem a sua verdade. Diante do conhecimento e da busca por explicações que tenham validade universais não há o menor sentido nas frases: “cada um acha o que quer” ou “cada um pensa o que quer”. Não é assim no conhecimento. À parte desses, estão os filósofos, os cientistas e todo aquele que busca conhecer as coisas pelo que elas realmente são e não apenas pelo modo aparente como elas se apresentam. E isso já nos dizia Platão no século IV a.C.