Os princípios necessários para se compreender o que é Público e o que é Privado

Hoje é comum nos deparamos com as questões que envolvem o ser social público e ser social privado. As redes sociais têm proporcionado o espaço para que as pessoas possam discutir e demonstrar seus aspectos privados diante de um universo público e este novo universo social tem se estendido ao universo das autoridades públicas.

O primeiro princípio a ser esclarecido parte exatamente do conceito de Rede Social.

Começando pelo conceito de Rede, este é derivado do latim rete, que significa pontos que se juntam para entrelaçar algo ou no sentido mais comum: conexão. Rede, portanto, tem o significado de “ atar junto”, “atar um ao outro”, em um sentido mais amplo atar algo a alguma coisa..

Como o próprio significado da palavra já indica, estar em rede é estar conectado a algo, junto a algo. No entanto, o significado de rede recebe um outro complemento: o social, do latim socius, que significa companheiro, seguidor, derivado do verbo sequi, seguir, ir junto, acompanhar.

Disso decorre que Rede Social significa estar conectado a outro, ao companheiro, seguindo junto a pontos comuns. Portanto, o conceito de Rede Social remete ao entendimento que cada um que se conecta a ela deixa de se ligar a si mesmo para estar conectado a outro ou a muitos. Neste sentido, estar em rede é, portanto, deixar de ser privado para ser público, pois, o termo somente faz sentido se houver um outro ser conectado a você.

Por sua vez, o termo Privado deriva do latim privare, aquilo que é colocado à parte, separado. Privado é, de fato, aquilo que se refere ao um ser específico, como coisa ou indivíduo. Como seres privados somos aquilo que está a parte dos outros, ou seja, separado deles e, portanto, nada mais subjetivo do que Ser aquilo que somos em nós mesmos, isto é, separados do mundo. Por oposição, privado não se refere ao social, pois, ser social é ser com o outro, embora haja dentro de você mesmo o seu ser privado. Porém, e aqui está o pulo do gato para compreender o social, este ser privado por princípio está separado do ser social, que, como dissemos, significa estar junto com o outro.

Neste sentido, nas Redes Sociais, a privacidade é instância menor, pois, de fato, estar em rede é socializar o seu ser privado com o outro, ou seja, nas redes sociais, queiramos ou não, somos públicos. Por isso, termos como compartilhar, participar, seguir, grupos são significativos e significados que fazem parte das redes sociais, pois remetem à dimensão do público como fundamento da ação nela mesma.

Isto significa dizer que o “público” não permite agir nem considerar como se a ação fosse privada. Daqui, pois, a confusão em alguns acharem que, ao manifestar o seu ser privado, todos tem que concordar com ele ou serem iguais a eles. Não! Cada ser manifesta o ser privado diante do público, mas o seu ser não é e não pode ser no outro. Pois, por princípio, seu ser é separado do meu e, por isso, existem regras e leis para compreensão da dimensão social. Pois, cabe compreender que o ser social (público) tem a dimensão necessária do outro e este ser deve ser guiado por uma dimensão pública e não por uma dimensão privada.

É neste sentido que emerge a ordem social para designar exatamente esta noção primordial para o comportamento social. Você pode andar nu no seu quarto (privado), mas isso não significa que eu quero lhe ver assim na rua (público). Você pode ser roqueiro e ouvir no seu quarto Iron Made (privado), mas isso não significa que eu quero ouvi-lo com você no ônibus (público).

A relação privado e público e a compreensão dessa relação surge para nós como uma necessidade intrínseca no convívio social. É, pois, por causa desta relação que você foi a escola: para aprender a ser público, pois, a ser privado você, espera-se, fora educado pela sua família. Fora aqui que você aprendeu as suas regras morais familiares, a se relacionar hierarquicamente com os seus pais e seus parentes. Fora aqui que você recebeu a dimensão do seu ser cultural privado que cria a sua identidade privada e diz, de certo modo quem você é.

Na escola, todavia, você aprendeu a se relacionar com os outros, o que chamamos de Socialização, ou seja, fora lá que você aprendeu a ser público. Fora lá que você aprendeu a se posicionar publicamente, compartilhando ambientes comuns, como sala de aula, pátios, equipamentos, etc. Fora lá que você aprendeu as regras da ordem social e foi aqui que você se mostrou ao social.

Mas o problema entre o público e o privado não parece estar apenas nas instâncias do cidadão comum. Esta confusão se agrava mais ainda quando falamos de autoridades que exercem cargos públicos. O princípio de publicidade, ou seja, o princípio que move o ser público, rege as ações e os pensamentos daquele que exerce um cargo público. Pois, como o nome já diz, um ser privado foi designado para ser público e, portanto, não interessa ao público o que ele pensa ou age como ser privado, senão apenas como ele conduz os interesses públicos ao exercício da ação pública. Por isso, segue o alerta a quem exerce cargos públicos: a sua ação não deve partir do entendimento privado que você tem sobre as coisas, mas sobre o que o público entende sobre elas. E público aqui é tomado como ser social revestido pelo significado de estar junto a outro.

Por isso, qualquer opinião privada deve ser descartada na ação pública. No exercício do cargo público interessa apenas ações públicas, que se referem e se destinam a todos. Nas redes sociais, os servidores públicos seguem as leis que conduzem o princípio de publicidade, limitando-os quanto ao manifesto do privado. O mesmo ocorre quando exercemos um cargo em uma empresa. Ao nos tornamos membros dessa empresa, passamos a seguir os princípios que regem a, pasmem, sociedade daquela empresa. Por isso, ela embora tenham princípios que se referem a ela mesma, trata-se de uma sociedade e, novamente, o privado, o seu ser, deixa de ser para ser público.

Tantos são os ambientes coletivos, tantos será necessário a atenção para se posicionar publicamente. Se você não gosta de negros, problema seu; se você gosta de rock, problema seu; se você manifestas as suas preferências em público sobre o que você entende e faz o espaço público ser seu nos limites da intolerância social, problema nosso.

Pense nisso!