Nenhuma ideia pode ser maior do que aquele que a pensa

O que é Ser Humano? Sinceridade, às vezes acredito que o ser humano contemporâneo vive em um mundo que não é o nosso. Quando miro o passado e vejo o mundo hoje, reflito sobre como chegamos até aqui e por que este mundo hoje se apresenta de modo tão diferente, para mim, do mundo daqueles em que viveram outras épocas da nossa história humana.

Por certo, o mundo que hoje observo e ajudo a construir, de alguma maneira, tem seus pilares e, com certeza, não fui eu que os fundei. Quando me pergunto o que é Ser Humano, penso no conjunto de ideias que sustentam este conceito e que, segundo elas, me faz ser diferente de outros seres animais do nosso mundo. Mas ao me depara com aquelas ideias me pergunto quem as teve? E a resposta é histórica, a grande fonte de ideias da contemporaneidade sobre o que é o Ser Humano é a modernidade. Período este de grandes revoluções e de grandes viradas no modo de pensar humano.

Há neste período toda uma trajetória de reestruturação e, em muitos casos, de rompimento com as formas de pensar dos períodos históricos anteriores. Não será necessário explicitar alguns dos grandes pensadores do conceito de Ser Humano, basta lembrar alguns nome: Descartes, Rousseau, Kant para não sejamos injusto com outros grandes pensadores que fundaram os pilares da contemporaneidade.

Com efeito, a Modernidade se lançou sobre um projeto que, por certo, somos herdeiros dessa empreitada. O maior deles foi trazer ao humano a consciência de que cada um deles, ou seja, nós, somos partes integrantes de um projeto maior que se sobrepõe a qualquer um de nós. Tal projeto resume-se a termos simples: aprender a Ser Humano.

Quando analisamos as filosofias modernas percebemos que este projeto se consolida pela perspectiva de que “Ser Humano” envolve vários aspectos de uma mesma face. Ser Humano é produzir cultura, é produzir técnicas, artes e políticas, ao mesmo tempo que é produzir saberes e ações que têm em si mesmo as condições de Ser e as possibilidades de vir-a-ser Humano.

Não é longe desse ideal que a ciência, os Estados e formas de governos políticos foram pensados na contemporaneidade, não a partir do que são em si mesmo cada uma dessas ações humanas, mas a partir de quem as pensam. É neste sentido que podemos afirmar que se declarar humano é, pois, declarar-se religioso, artista, técnico, político, filósofo e cientista. Pois, este é o nosso legado, não somente como herdeiro de uma humanidade que trouxe cada um de nós até aqui, mas também como produtor de uma humanidade que levará a nós mesmos a um futuro não muito distante. E isso chamamos de Humanismo.

Ora, toda vez que ouço, vejo ou observo os conflitos internos da própria humanidade e vejo que “seres humanos” se desqualificam como tal e retornam à barbárie, não porque querem ser assim, mas porque pensam de modo ainda bárbaro e primitivo, concluo que a linha entre a selvageria e a humanidade não se trata de um traço ou de uma linha que se cruza apenas com um impulso qualquer do corpo, mas compreendo que na verdade trata-se de um fosso abissal, que remete alguns de nós a um distanciamento crucial entre o Ser Humano e o Ser Animal.

Exatamente porque toda vez que um indivíduo não se reconhece no outro o que é em si mesmo e opta por agir de forma diferente de si mesmo, retoma consciente ou inconsciente os princípios da sua própria desumanodade. Pois, de fato, não reconhecer que a religião é um produto humano, não reconhecer que a arte é um produto humano, não reconhecer que a política, a moral ou mesmo o saber é um produto humano, este indivíduo faz escapar de si mesmo a própria humanidade. E, nessa negação de si mesmo, ele chega no limite da irracionalidade, muito além da animal, pois este age por instinto e não tem consciência disso. Ora, querer, por desejo, que se eliminem humanos porque estes não praticam o que é nele mesmo natural, demonstra uma incapacidade de pensar, a ponto de não poder ser possível aqui classificá-lo como Ser Humano, senão por outra classe de espécie: selvagem.

Quando um sujeito rejeita uma ideia, uma forma de saber, uma forma de produzir a existência diferentemente daquele que compreende em si mesmo, querendo que aquele que a produz tenha o fim da sua existência, ou seja, em termos animais, “morra”, nega em si e a si mesmo o princípio de humanidade, e, por isso, classificamos tal ideia como desumana.

E é aqui que entra um valor que não pode estar abaixo de nada em si mesmo: o valor humano. Negar isso é negar a si mesmo.

Nos próximos séculos entraremos na Era da maior transformação do pensamento humano, do saber e do modo de produzir. Daremos um salto na consciência humana que jamais nenhum humano viveu, pois, tamanha será a liberdade de Ser e de pensar a si mesmo como Humano que nenhum outro ser humano, em todos os tempos vividos, alcançou tal dimensão na história do Ser e do Pensar Humano. E neste mundo não haverá lugar para aquele que acredita que uma ideia é maior que aquele que pensa a ponto de querer matá-lo, acreditando que mataria a ideia.

Por isso, isso se você ainda vê o Ser Humano por classes sociais, por religiões, por crenças políticas ou por adesão a sistemas econômicos, lamento informar que você está vendo apenas ideias e não a sua Humanidade. Estas são apenas produtos de quem um dia pensou o nosso passado e nos delegou formas de tê-las para chegarmos até aqui. Não para você ser o que você é nas suas convicções e querer que os outros sejam o que são a partir das “suas” ideias, pois, de fato, o que eu e você pensamos em nós mesmos é insignificante diante de todas as ideias já produzidas pela Humanidade, mas para que tudo isso seja pensado para que você e eu sejamos o que nós somos: Seres Humanos. E se você não mudar rápido o seu modo de pensar, talvez, este mundo que desponta no horizonte do tempo, como nos ensina Heidegger, não tenha lugar para você.