Flusser: Imagens e Fake News

Hoje um dos maiores processos de comunicação da atualidade praticada pelo ser humano que influencia de modo incisivo as suas ações do cotidiano é a produção de imagens. Quase todas as coisas que percebemos na nossa realidade são mediados por imagens. Qualquer indivíduo contemporâneo, urbano e conectado com o universo tecnológico, que orienta a sociedade do século XXI, se vê envolvido por conceitos representados pelas imagens. E aqui se entende que essa influência se dá não somente pelos meios de comunicação: TV’s, jornais, revistas, internet; mas também pela imagem que as coisas em si mesmas representam para nós.

Segundo o filósofo tcheco Vilém Flusser, autor das obras Filosofia da Caixa Preta, O mundo codificado e O universo das imagens técnicas – o elogio da superficialidade e que viveu no Brasil cerca de trinta anos, a sociedade do século XX viu nascer uma nova forma de alienação do mundo. Para ele, na atualidade, em relação à concepção de mundo (a abstração mental que fazemos da nossa realidade), somos orientados a perceber a imagem como mediadora fundamental à nossa leitura de mundo.

As imagens exercem tanta influência no nosso cotidiano que em muitos momentos deixamos de perceber o que elas significam para percebê-las apenas o que elas indicam a nós. Em uma sociedade tecnológica em que a ação humana vai se reduzindo, aos poucos, a aperto de teclas e à interpretações de mundo orientadas por imagens, percebemos que os processos que guiam as nossas escolhas e as nossas ações têm forte incidência na compreensão que fazemos do mundo, não apenas nas instâncias práticas, no plano da ação humana, como também nas instâncias psicológicas e abstratas que formam os conceitos existenciais do “Ser Humano” que lê e interpreta os significados do mundo.

Ao nos entretermos em frente à televisão, à tela do cinema e à do computador (instrumentos de divulgação de imagens do mundo contemporâneo), nada mais fazemos do que operar imagens; seja por associação; seja por comparação; seja por assimilação. E é esse modo de lidar com os significados, o sentido dado ao mundo, que acaba por impor barreiras em nós para a percepção de outro sentido que o mundo possa nos apresentar.

De fato, quando estendemos o nosso olhar um pouco além dos limites das nossas percepções sensoriais, percebemos que o que nos cerca não são coisas, mas formas imaginadas, prontas, que nos orientam em meio à sociedade. Assim, somos guiados por um conjunto de imagens que representam e simbolizam algumas coisas, mas que devido ao seu modo de concepção e divulgação muitas vezes disfarçam a realidade a qual elas procuram representar.

Tomemos, por exemplo, a cidade dos Estados Unidos Las Vegas. O que é de fato aquela cidade? Ela é real ou apenas produto de imagens? Os monumentos que ali encontramos como as cidades de Paris, Cairo, Veneza são realmente o que são ou são apenas imagens que tão um sentido ao que Las Vegas representa? Os hotéis, os cassinos, as limusines e toda a fantasia que ela representa, assim como Dubai e as Disneylândias ao redor do mundo, são reais ou produtos de um universo orientado por imagens?

Com efeito, quando somos postos diante dessa realidade, não podemos dizer que são falsas, mas podemos afirmar que são simulacros da realidade.

Assim, percebemos que, na sociedade contemporânea, a leitura que os indivíduos fazem da sua realidade se fundamenta no modo como as imagens estão colaborando ou, para ser mais incisivo, demonstrando o mundo. Segundo o filósofo tcheco, hoje somos induzidos a uma percepção de um mundo codificado por imagens, isto é, usando a sua terminologia, codificado por imagens técnicas. Em sua definição, imagens técnicas são resultados de imagens produzidas por aparelhos e programas. São elas que permeiam a sociedade e incidem diretamente na nossa percepção de mundo, na nossa percepção de realidade. Hoje, mais que formas bidimensionais apreendidas da realidade, as imagens técnicas são pixel, pequenos pontos, que informam, no sentido de dar forma, por meio de programas, os conceitos ou a materialidade das coisas que busca representar.

Isto significa dizer que as imagens técnicas são modos humanos de codificar conceitos no interior da sociedade. Em sua obra O universo das imagens técnicas – elogio da superficialidade, Flusser aponta para o aspecto programático e limitador em que as imagens do mundo contemporâneo são produzidas e decodificadas.

No seu modo de entendê-las, a criatividade humana, aquela inicial em que o homem representava o mundo por uma concepção abstrata e imaginativa, isto é, criadora, da realidade, se vê agora limitada não apenas pela forma como as imagens são produzidas, pois a imaginação humana se limita àquilo que os programas permitem produzir como imagens, mas também no modo como são interpretadas.

Por um lado, isto significa dizer que hoje a imaginação humana por si só não é suficiente para criar as imagens que quer codificar, visto que hoje a criação da imagem é seguida, muitas vezes, da pergunta: em que programa você fez essa imagem?; por outro, a decodificação das imagens se dá na superficialidade dada pela própria imagem. Entende-se aqui “a superficialidade da imagem” como “superfícies que transcodificam processos em cenas”(FLUSSER, 1985).

Há, portanto, dois movimentos necessários para que possamos compreender o pensamento do filósofo em relação à imagem. Primeiro, aquele em que a imaginação humana se deixa limitar pelos programas aos quais as mentes humanas são submetidas; segundo, como as imagens impedem que decodificamos outra leitura da realidade.

No primeiro movimento, Flusser dirá, em Filosofia da Caixa Preta, que ao operar imagens em programas para produzir imagens, os programadores (ou criadores de imagens) não as fazem apenas a partir da sua decisão e da sua imaginação, mas como funcionários de metaprogramas (programas que constroem programas e rodam outros programas); fazem-nas também a partir das possibilidades que os programas lhes permitem. De modo que, mesmo tendo a intenção de fazer imagens criativas, sua criatividade está limitada às potencialidades que descobre nos programas.

Dentro dessa concepção de Flusser, cabe entender que os programas são produtos de uma revolução instrumental e científica. Para ele, se antes da revolução industrial os instrumentos que cercavam os humanos funcionavam em função deles; hoje o humano vive em função dos programas que programam imagens. Isso se dá porque o humano à medida que se desenvolveu tecnicamente se deixou cercar: primeiro por máquinas e passou a viver em função delas; depois, por programas que passaram a exercer a funcionalidade das máquinas e, por último, por imagens programadas (imagens técnicas ou tecnoimagens) que agora invadem a esfera existencial humana, fazendo-o viver em função delas.

Assim, se por um lado, hoje o homem não usa mais a sua criatividade em função daquilo que decide, usa-a apenas em função daquilo que os programas lhe permitem; por outro, a função do programador de imagem é procurar esgotar todas as potencialidades que os programas lhe oferecem. Todavia, os programas atendem aos objetivos do próprio sistema em que foi gerado, o industrial; desse modo, portanto, as potencialidades dos programas devem sempre exceder a competência do operador para esgotá-las. Embora o criador de imagem acredite ser criativo, a sua imaginação é aplicada apenas até os limites circunscritos nos programas.

Desse pensamento de Flusser, percebe-se a leitura particular e relevante que faz do momento contemporâneo da nossa sociedade. De fato, hoje um profissional de design ou da comunicação ou qualquer outro profissional que se insere no contexto aqui analisado, não se encerra apenas no conjunto de conhecimento de ferramentas tecnológicas que adquire ao longo de sua formação ou no exercício da profissão. Ao contrário, a cada ano milhares e milhares de novos pacotes, atualizações, complementos de app, software, hardware e outros recursos são despejados no mercado, exigindo deles uma constante atualização e uma suposta criatividade ilimitada.

Ao produzir uma imagem por meio de programas, as decisões do criador não estão mais na sua capacidade de articular as próprias intenções ou desejos, mas apenas em ações pré-estabelecidas pelos programas. Daí a expressão o programa não permite que se faça isso. Dentro dessa perspectiva, há e sempre haverá programas cada vez mais potentes a cada ano.

O fato é que os programas e as imagens técnicas escapam ao controle humano. Todavia, tanto um como a outra não são suficientemente independentes de toda a intervenção humana, necessitam ao menos dos dedos humanos para serem produzidos. Os humanos precisam apertar teclas para fazer funcionar um e para produzir a outra, deixando-lhes, desse modo, a sensação de que dominam os programas e as imagens que operam na realidade.

Aqui, o criador acredita dominá-las, porém, somente passa a reprogramar e a criar o sentido das coisas e do mundo dentro dos limites que os programas lhe impõem. E, por isso, é dominado. É desse pensamento também que surge a necessidade cada vez maior de aparelhos mais rápidos, menores e flexíveis para que atendam não apenas as funcionalidades das coisas ao homem ou que colaborem para a realidade que se cria, mas para atenderem principalmente as necessidades dos programas e das imagens técnicas.

Os humanos da contemporaneidade vivem hoje não em função de si mesmos, mas em função de imagens que “informam” (dão forma) a realidade e de teclas, isto é, passam a viver em função das imagens técnicas, que por sua vez são produtos de programas. Segundo Flusser, quem quiser captar a essência dos programas deverá deixar de brincar com programas para perceber o aspecto instrumental deles e das imagens técnicas produzidas por eles (FLUSSER, 1985).

No segundo movimento, Flusser dirá que o mundo atualmente não se apresenta mais como linhas, processos, acontecimentos, mas como planos, cenas, contextos. Isso implica dizer que as superfícies das imagens adquirem cada vez mais importância no nosso dia-a-dia. Se antes para imaginarmos um mundo criado por linhas escritas, éramos obrigados a segui-las por meio de outros significados para decodificar a sua mensagem em seu todo; hoje, apreende-se primeiramente a mensagem para depois decodificá-la.

Para Flusser, há duas formas de se decodificar os conceitos mediados por ambos os textos. O “pensamento-em-linha” e o pensamento-em-superfície”. Enquanto um necessita de todo um aparato cultural do receptor para ser decifrado; o outro necessita apenas de experiências vividas desse. Enquanto um reporta uma mensagem denotativa, cujos significados necessitam ser compreendidos e, por isso, pensados de modo precisos; o outro conota a interpretação a partir das próprias representações do receptor.

Isso implica dizer que à medida que os modelos que mediam a “conceitualização” do mundo são transformados, surgem, simultaneamente, mecanismos que impedem que os conceitos representados sejam pensados em sua plenitude. Para ele, a função das imagens técnicas é “a de emancipar a sociedade da necessidade de pensar conceitualmente” (1985). A tarefa principal das imagens técnicas é criar um ambiente cultural guiado por um único código e unificar os universos culturais em uma única cultura. Na verdade, trata-se de transformar valores objetivos postos nos objetos (conceitos) em sensações dadas pelas próprias experiências vividas pelo receptor (vivencias), formando, desse modo, uma cultura democrática, longe daquela da cultura de massa. Nessa nova cultura, o que se constitui é um plano cultural humano que visa a troca de informações por intermédio de imagens e não mais o plano de circulação de imagens massivas entre os humanos. Não se trata, portanto, de se incluir em uma massa cultural que se homogeneíza pelo mundo, mas de se tornar membro de uma massa sem forma, senão aquela dada pelas imagens-técnicas.

Por isso, pode-se sair do Brasil hoje e ir a qualquer país envolvido nesse processo e operar códigos e imagens que dizem respeito não somente a nós, mas a todo cidadão que tem si essas experiências vividas pelas imagens técnicas. As imagens planas dos caixas eletrônicos, por exemplos, são experiências vividas que não precisam de códigos lineares para serem operadas. Pode-se sacar dinheiro ou pagar uma conta sem que se saiba denotar os conceitos lineares ali inclusos, apenas podemos nos orientar pelos padrões de imagens que surgem na tela que pode ser teclados para que ação seja realizada. Do mesmo modo, pode-se conhecer Paris sem nunca ter pisado em solo francês, ou ainda ter a sensação de pilotar um avião sem nunca ter pisado em um aeroporto. Para isso, basta teclar em um computador a vivência desejada; seja em um simulador de um ambiente de um museu na França em 360º graus; seja em simulador de vôo instalado em seu desktop.

Contudo, dessas duas formas de decodificar o mundo, aquela a que se refere as imagens técnicas implicam que quanto mais perfeita tecnicamente elas se tornam menos possíveis de se distinguir o que é fato do que é imagem. Com isso, perde-se o senso de realidade, pois não sabemos o que é real do que é simulado ou fraude.

Isso porque os humanos que recebem as mensagens mediadas por imagens não mais as decodificam em sua plenitude; não mais percebem os códigos por de trás delas; mas somente percebem as imagens e as mensagens que lhes são inerentes. Assim, ao não terem mais a noção do que seja real ou falso, do que seja verdadeiro ou simulacro, o humano passa a se guiar apenas por aparências. Não percebem, por exemplo, que ao estarem em Las Vegas não estão em Paris, Veneza ou Cairo, porque não compreendem os códigos que movem os planos superficiais dessas imagens. Ou ainda que um carro ou um telefone nada mais são do que conceitos de realidade que não são novos, mas que apenas apresentam uma aparência para assim serem.

Todavia, há solução para as dificuldades até aqui encontradas. Embora Flusser pareça pessimista quanto a atual realidade, de fato, ele possui um projeto para que possamos não apenas escapar das superficialidades das imagens, mas também para darmos um salto no processo de conscientização humana, o que ele chama de engajamento antidispersivo, mas isso cabe em outras linhas, em outro momento. O que permanece agora é a percepção de uma leitura singular e provocativa que Flusser nos oferece das experiências da contemporaneidade. Somos fundamentalmente receptores programados de imagens técnicas ou prisioneiros das imagens.

Por Porfirio Amarilla Filho

BIBLIOGRAFIA

FLUSSER. V. Filosofia da Caixa Preta. São Paulo: Hucitec, 1985.

_______. V. O mundo codificado. São Paulo: Cosac Naify, 2007.

_______. V. O universo das imagens técnicas: elogia da superficialidade. São Paulo: Anna Blume, 2008.