Hoje: O Mundo das Ideias e o Mundo dos Sentidos

As teorias do conhecimento que buscam compreender os processos de apreensão e representação da realidade, ao longo da história do pensamento humano, são muitas. Desde o debate inicial entre Parmênides e Heráclito sobre com se apresenta a realidade e como homem a apreende e a opera, os caminhos para a compreensão desse movimento nos apresenta os dois pólos fundamentais, a saber, os sentidos e a razão.

Se por um lado, os sentidos nos apresentam falha, como bem destaca Descartes, e não nos dá as certezas necessárias para repousar o conhecimento verdadeiro sobre essa capacidade humana, por outro, a razão parece depender mais do sujeito que conhece do que o objeto em si e sobre as verdades que lhe fazem referências. No entanto, não podemos nos fechar no dogma de que a verdade, como conhecimento, é relativa. Há de fato uma verdade, mas ela é, por princípio, elaborada, pensada e aplicada por um sujeito que deve não somente compreender a complexidade que ela lhe revela, mas a própria complexidade do ser que a pensa.

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Assim, há de se pensar as teorias do conhecimento a partir da biologia do conhecimento, da psicologia do conhecimento, da sociologia do conhecimento, da antropologia cultural do conhecimento etc. Todos são aspectos elementares e incisivos nos movimentos que conduzem os homens à verdade.

Por um lado, os riscos de interpretação na concepção de ideias e na sua aplicação geram erros em nós mesmos, e por vezes esses erros caminham à objetividade; por outro, como afirma o filósofo Vilém Flusser, em O mundo codificado, a objetividade também “forma” ideias. Disso se revelam dois movimentos no homem, o primeiro, o homem pode apreender formas, segundo, o homem pode pôr formas. Desse modo, o mundo, os objetos, os fenômenos surgem para nós como modelos formais, ao mesmo tempo em que recebem formas, e o imaterial surge como aquilo que está ausente de forma e não ausência de matéria. Porém, quando essa forma é intencional, como é o caso da contemporaneidade, cria-se uma objetividade guiada por uma cultura imaterial, uma cultura formal, em que é a “forma” como a objetividade é realizada que vale como princípio de apreensão e representação e não como ela se é de fato, por isso, o conceito informar (impor ou por formar à matéria) se torna tão relevante na nossa sociedade hoje.

De fato, Ptolomeu e Copérnico pensaram modelos formais da objetividade. Isto, por tanto, implica dizer que existem dois mundos distintos o material e o formal. Assim, a forma (abstração do intelecto) em si mesma é “ato” para potencializar à realidade.

O homem, então, navega entre os dois mundos, em que dar sentido (conhecer) a um não implica perder o sentido do outro (desconhecer), ao contrário, os dois mundos surgem como movimentos necessários ao homem à compreensão do mundo, dos objetos e da própria existência. Aqui, exatamente, repousa a compreensão de que ele é ato, assim como, potência à dimensão divina, um Ser que capta a “forma” de si mesmo e do mundo e, por isso, é capaz de pensar e conduzir a sua objetividade.

Se antigamente, o que se propunha era a “ordenação formal” do mundo (Galileu, Descartes, Newton), hoje, a realidade é outra, e, por isso, solicita-se “formar o mundo” (seria re-formar, segundo Morin) existente – ato, em sentido o contrário do que é posto, “realizar” (sentir) o mundo existente – potência. Em que a verdade não surge segundo uma e outra dimensão do conhecimento, mas como resultado de uma atividade e busca intelectual complexa que se direciona à atividade sensível. Um movimento que sobreponha o homem além dos sentidos, para que possa compreender o Ser em ato-potência que é, capaz de transcender as cordas que o conecta ao mundo sensível e conectar-se também à sua instância espiritual.