A Filosofia do Pão…

O que é o pão? Quais as relações culturais e sociais que se podem elencar a partir do pão? Historicamente é o pão elemento da cultura humana que pode colaborar para a compreensão dos aspectos sociais, políticos e culturais da humanidade? Há no pão formas de conhecimento da atividade humana diante da compreensão dos fenômenos da natureza? Há uma relação entre as ocupações espaciais humanas e o pão? Existem relações filosóficas, teológicas, antropológicas, históricas, sociologias, psicológicas, biológicas, químicas, físicas entre o pão e homem?

Quando nos é colocado um pão francês à mesa emanando seu odor agradável, um calor prazeroso, com a sua textura fofa e seu ruído mágico da casca enrijecida quebrando, dificilmente se perguntará sobre as questões que o envolve em relação a nossa humanidade. Mas ao se perguntar quais as relações que se pode estabelecer entre ele e os humanos, ver-se-á que elas irão além da sua definição como alimento humano. Isto é, um modo humano de preparar alimentos que culminou naquela forma agradável ao olhar, ao paladar, ao olfato, ao tato, à audição.

Do ponto de vista do conhecimento humano, o pão é um conjunto de reações físicas, biológicas, químicas, históricas, sociais, psicológicas e filosóficas, que culminaram nesse momento mágico da história da humanidade, que é degustar um pão quentinho, saído do forno.

Com efeito, para a compreensão do que vem a ser o simples ato de fatiar um pão e deliciar-se com seu sabor, é necessário ir além das respostas simples: o pão é um alimento.

É possível problematizar e compreendê-lo, com efeito, pela perspectiva da física, como também, pela da biologia, ou ainda pela da sociologia. Porém, a complexidade que ele revela, requer não apenas a compreensão de uma seqüência lógica da culinária para o seu preparo, mas requer também a capacidade de perceber e problematizar um saber que remete a questões que envolvem a sua totalidade.

Conhecer o pão, de fato, é problematizar todas as relações e interações que se fazem necessárias ao seu entendimento. É preciso perceber as suas relações, não apenas as de preparo, com outras áreas do saberes humanos, como a história, a sociologia, a psicologia e a antropologia.

Por exemplo, pela química o pão é um conjunto de moléculas que reagem e interagem à medida que se fundem, misturam-se e elimina-se uma ou outra molécula por meio de um processo de levedura e aquecimento, para produção de gás que provoca o seu crescimento. Contudo, do ponto de vista da singularidade que é o pão posto à mesa, esta definição da química revela o que ele é como objeto de compreensão da cultura humana? A totalidade das relações possíveis do pão, isto é, a percepção do objeto em todas as suas relações, insere-se e se envolve nesta simples compreensão?

O pão à mesa revela toda a complexidade que envolve o saber humano e o desenvolvimento da própria cultura humana. O pão não nos revela apenas um conjunto de questões químicas ou biológicas problematizadas a partir da compreensão do seu modo de preparo. Há nele saberes que se unem e interagem para compor a percepção de um contexto histórico, geográfico, social, político e religioso e lhe dar sentido como elemento da cultura humana, em sua significação e valorização.

Dentro dessa perspectiva, pode-se, então, compor algumas relações que se estabelecem. A falta do pão, por exemplo, iniciou os primeiros movimentos sociais que desencadearam a Revolução na França (história política e sociologia), ao mesmo tempo em que é fundamental para a compreensão da política romana na antiguidade (Pão e Circo), sem querer aqui se estender a outros tantos movimentos sociais que envolvem esse alimento mágico.

É no pão que se percebe também o modo como o homem ocupa o espaço geográfico na Terra para a produção dos ingredientes necessários à sua elaboração. É nele que se percebe que o seu custo, como alimento básico e necessário à existência humana, reporta aos conceitos econômicos e aos modos de produção de existência para a compreensão da sociedade contemporânea. É nele que se percebem as técnicas desenvolvidas pelo homem ao longo da sua história, como o fogo, o forno, a produção em massa, por exemplo, que são processos que o envolve e faz emergir de uma massa pálida as sensações agradáveis às nossas sensibilidades. É nele que se simboliza e se comunica os conceitos de partilha, de solidariedade e de fraternidade (dividir o pão), conceitos esses que compõem a noção de sociedade e cidadania na existência social com o outro. É por meio dele que percebemos comportamentos que remetem ao sagrado, ao religioso, ao mitológico. É nele que podemos nos perguntar por que cada uma das suas partículas se comporta aparentemente de modo organizados (pela física tradicional) e sobre os conceitos de termodinâmicas, que nos remetem à física.

Tais aspectos, isto é, físicos, biológicos, químicos, históricos, sociológicos, psicológicos , antropológicos e filosóficos, separados entre si não revelam de fato o que é o Pão para a humanidade. Mais do que um alimento necessário ao humano, o pão representa a união necessária das culturas humanas para elaboração de um pensamento complexo e, portanto, para a compreensão do próprio ser humano.

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